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Equações separáveis

O método mais direto de resolução de primeira ordem — e o primeiro lugar onde se perde solução sem perceber.

Ordem
Tipo
linear e não linear
Métodos
separaveis
Aplicações
dinâmica populacional

Antes distoO que é uma equação diferencial

Uma equação de primeira ordem é separável quando a derivada se fatora em uma parte que só depende de xx e outra que só depende de yy. Quando isso acontece, o problema de resolver uma equação diferencial se reduz a calcular duas integrais independentes.

Por que o método funciona

O procedimento que se aprende — “passa o dydy para um lado, o dxdx para o outro e integra” — é uma manipulação de símbolos que não se justifica sozinha. dy/dxdy/dx não é uma fração. O que legitima o método é a regra da cadeia:

Demonstração— Teorema da separação

Como hh não se anula em JJ, podemos dividir a equação por h(y)h(y):

y(x)h(y(x))=g(x).\frac{y'(x)}{h\bigl(y(x)\bigr)} = g(x).

Seja HH uma primitiva de 1/h1/h em JJ, isto é, H(u)=1/h(u)H'(u) = 1/h(u). Pela regra da cadeia,

ddx[H(y(x))]=H(y(x))y(x)=y(x)h(y(x))=g(x).\frac{d}{dx}\Bigl[H\bigl(y(x)\bigr)\Bigr] = H'\bigl(y(x)\bigr)\,y'(x) = \frac{y'(x)}{h\bigl(y(x)\bigr)} = g(x).

Logo H(y(x))H(y(x)) e g(x)dx\int g(x)\,dx têm a mesma derivada em II, e portanto diferem por uma constante. Isso é exatamente a igualdade do enunciado.

Fim da demonstração.

Um exemplo completo

dydx=xy\frac{dy}{dx} = x\,y
y(0)=2y(0) = 2

Métodoseparaveis

  1. g(x)=x,h(y)=yg(x) = x, \qquad h(y) = y

    A equação já está na forma g(x)h(y)g(x)h(y), com g(x)=xg(x) = x e h(y)=yh(y) = y. separavel

  2. y0 eˊ soluc¸a˜o; supomos y0 daqui em diante.y \equiv 0 \text{ é solução; supomos } y \neq 0 \text{ daqui em diante.}

    O teorema exige h(y)0h(y) \neq 0, e hh se anula em y=0y = 0. Verificando diretamente na equação: se y0y \equiv 0 então y=0=x0y' = 0 = x \cdot 0. É solução, e o método a seguir não vai encontrá-la. separacao

  3. dyy=xdx\frac{dy}{y} = x\,dx

    Separação propriamente dita, legítima porque y0y \neq 0. separacao

  4. lny=x22+C1\ln|y| = \frac{x^2}{2} + C_1

    Integrando os dois lados. O módulo em lny\ln|y| é obrigatório: a primitiva de 1/y1/y é lny\ln|y|, e yy pode ser negativo.

  5. y=exp(C1)exp(x2/2)y=Cexp(x2/2),C0|y| = \exp(C_1) \exp(x^2/2) \quad\Longrightarrow\quad y = C\,\exp(x^2/2), \quad C \neq 0

    Exponenciando. O sinal absorvido por CC dá conta dos dois ramos, e C0C \neq 0 porque exp(C1)>0\exp(C_1) > 0.

  6. y=Cexp(x2/2),CRy = C\,\exp(x^2/2), \qquad C \in \mathbb{R}

    Aqui a solução perdida volta: C=0C = 0 devolve exatamente y0y \equiv 0. Estender a constante a toda a reta cobre a família inteira de uma vez.

  7. C=2y=2exp(x2/2)C = 2 \quad\Longrightarrow\quad \boxed{y = 2\,\exp(x^2/2)}

    Aplicando a condição inicial: y(0)=Cexp(0)=Cy(0) = C \exp(0) = C.

A mesma resolução, agora como transformação contínua: cada linha se reescreve na seguinte, e a restrição C ≠ 0 cai no fim.

Geometria da família de soluções

Toda a álgebra acima descreve um objeto geométrico: a família de curvas que seguem o campo de direções. Vale ver as duas coisas.

As curvas não são desenhadas sobre o campo — elas o seguem. A condição inicial escolhe um membro da família.

Agora explore você. Repare que a solução de equilíbrio y0y \equiv 0 é a reta horizontal: passe o cursor perto dela e depois afaste-se para ver as duas metades da família se abrirem em direções opostas.

Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.

Equilíbrios e o que eles significam

Os zeros de hh nunca são um detalhe administrativo: são as soluções de equilíbrio, as constantes que a equação admite. E são elas que organizam o comportamento de longo prazo de todas as outras soluções.

Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.

Exercícios

O terceiro exercício é uma armadilha proposital, e prepara o terreno para o próximo tópico.

  1. básicoexplosão em tempo finitono espírito de Braun §1.4

    Resolva dydx=y2\dfrac{dy}{dx} = y^2 com y(0)=1y(0) = 1, e determine o maior intervalo em que a solução existe.

    Dica

    Separe e integre. Depois olhe com atenção para o denominador do resultado.

    Resolução

    Separando (y0y \neq 0; note que y0y \equiv 0 também é solução, mas não satisfaz a condição inicial):

    dyy2=dx1y=x+Cy=1x+C.\frac{dy}{y^2} = dx \quad\Longrightarrow\quad -\frac{1}{y} = x + C \quad\Longrightarrow\quad y = \frac{-1}{x + C}.

    De y(0)=1/C=1y(0) = -1/C = 1 vem C=1C = -1, logo

    y(x)=11x.y(x) = \frac{1}{1 - x}.

    O intervalo. A solução existe apenas em (,1)(-\infty, 1): quando x1x \to 1^-, y+y \to +\infty. A equação não tem nada de singular em x=1x = 1f(x,y)=y2f(x,y) = y^2 é suave em todo o plano —, mas a solução explode ali mesmo assim.

    Isto se chama explosão em tempo finito, e é a razão de qualquer integrador numérico precisar de um critério de parada: o campo de direções desta própria plataforma detecta o valor não finito e interrompe o traçado.

  2. intermediáriosolução implícitano espírito de Braun §1.4

    Resolva dydx=xy\dfrac{dy}{dx} = \dfrac{x}{y} com y(0)=2y(0) = 2, e identifique geometricamente a família de curvas obtida.

    Dica

    Depois de integrar, você terá uma relação entre x2x^2 e y2y^2. O que ela descreve no plano?

    Resolução

    Separando:

    ydy=xdxy22=x22+C1y2x2=C.y\,dy = x\,dx \quad\Longrightarrow\quad \frac{y^2}{2} = \frac{x^2}{2} + C_1 \quad\Longrightarrow\quad y^2 - x^2 = C.

    De y(0)=2y(0) = 2 vem C=4C = 4, e portanto y2x2=4y^2 - x^2 = 4. Como y(0)=2>0y(0) = 2 > 0, tomamos o ramo superior:

    y(x)=x2+4.y(x) = \sqrt{x^2 + 4}.

    Geometria. A família y2x2=Cy^2 - x^2 = C é uma família de hipérboles equiláteras. Para C=0C = 0 ela degenera nas retas y=±xy = \pm x — que são exatamente onde o campo x/yx/y deixa de estar definido (y=0y = 0) ou tem inclinação zero (x=0x = 0).

  3. avançadofalha da unicidadeno espírito de Braun §1.4 e §1.10

    Considere dydx=3y2/3\dfrac{dy}{dx} = 3\,y^{2/3} com y(0)=0y(0) = 0.

    Mostre que y0y \equiv 0 e y=x3y = x^3 são ambas soluções. O que isso diz sobre o método de separação?

    Dica

    Verifique cada candidata substituindo direto na equação — verificar é sempre possível, mesmo quando resolver é delicado.

    Resolução

    Verificação de y0y \equiv 0. Então y=0y' = 0 e 3y2/3=03y^{2/3} = 0. Satisfaz, e y(0)=0y(0) = 0. ✓

    Verificação de y=x3y = x^3. Então y=3x2y' = 3x^2, e

    3y2/3=3(x3)2/3=3x2.3y^{2/3} = 3\bigl(x^3\bigr)^{2/3} = 3x^2.

    Satisfaz, e y(0)=0y(0) = 0. ✓

    Duas soluções distintas pelo mesmo ponto. O problema de valor inicial não tem solução única. (Na verdade há infinitas: para qualquer a0a \geq 0, a função que vale 00 em xax \leq a e (xa)3(x-a)^3 em x>ax > a também serve.)

    O que isso diz sobre o método. A separação, aplicada mecanicamente, daria

    y2/3dy=3dx3y1/3=3x+C,\int y^{-2/3}\,dy = \int 3\,dx \quad\Longrightarrow\quad 3y^{1/3} = 3x + C,

    produzindo y=(x+C/3)3y = (x + C/3)^3 e escondendo por completo a solução y0y \equiv 0 — que é justamente o zero de h(y)=3y2/3h(y) = 3y^{2/3} que a divisão descartou.

    Mas o problema aqui é mais fundo do que uma solução perdida. Em y=xyy' = xy, a solução perdida era recuperável e a unicidade continuava valendo. Aqui a unicidade falha de verdade, e nenhum cuidado algébrico conserta isso.

    A causa é que h(y)=3y2/3h(y) = 3y^{2/3} não é derivável em y=0y = 0 — sua derivada 2y1/32y^{-1/3} explode ali. É exatamente a hipótese que o próximo tópico vai exigir.

Listas destas aulas

Aula 03Braun §1.4

Substituições: equações homogêneas e a translação dos eixos

Nenhum dos quatro problemas desta lista é separável do jeito que está escrito. E ainda assim eles são exercícios da seção das separáveis, porque é isso que a lista quer ensinar: uma troca de variável bem escolhida transforma numa separável uma equação que não era. São dois mecanismos, e os quatro enunciados os combinam.

Primeiro mecanismo: equações homogêneas. É o exercício 13 da mesma seção. Se o lado direito depende de tt e yy apenas através do quociente y/ty/t,

dydt=f ⁣(yt),\frac{dy}{dt} = f\!\left(\frac{y}{t}\right),

a substituição y=tvy = tv — isto é, v=y/tv = y/t — produz y=v+tvy' = v + t\,v' e portanto

tdvdt=f(v)v,ou sejadvf(v)v=dtt,t\,\frac{dv}{dt} = f(v) - v, \qquad\text{ou seja}\qquad \frac{dv}{f(v) - v} = \frac{dt}{t},

que é separável. A razão de fundo é que f(y/t)f(y/t) não muda quando se multiplicam tt e yy pelo mesmo fator: o campo de direções é constante ao longo de cada reta que passa pela origem, e vv é justamente o rótulo dessa reta.

Segundo mecanismo: transladar a origem. Considere

dydt=at+by+mct+dy+n.\frac{dy}{dt} = \frac{at + by + m}{ct + dy + n}.

Sem mm e nn ela seria homogênea, e o primeiro mecanismo resolveria. Com eles, a invariância por escala se perde — mas repare no que mm e nn são geometricamente: numerador e denominador se anulam sobre duas retas, e as constantes só dizem que essas retas não passam pela origem. A substituição t=T+ht = T + h, y=Y+ky = Y + k é uma translação dos eixos, e escolher (h,k)(h,k) como o ponto de encontro das duas retas faz as constantes sumirem. Vista do novo centro, a equação é homogênea.

Quando não há ponto de encontro. As retas podem ser paralelas — é exatamente o caso adbc=0ad - bc = 0 —, e aí não existe (h,k)(h,k) que sirva: a translação não funciona. Mas então numerador e denominador são funções da mesma combinação v=at+byv = at + by, e é ela a variável certa. O exercício 21 organiza os dois casos, e o 23 é um exemplar concreto do paralelo.

Assim: 20 e 22 são o caso genérico (retas concorrentes, translação seguida de homogênea), 21 é o teorema por trás dos dois, e 23 é o caso degenerado.

O enunciado é do livro; a resolução é nossa. Tente antes de abrir — e confira 21 e 23 na p. 557 do Braun; os pares não têm resposta no livro.

  1. intermediáriotranslação dos eixosBraun §1.4, nº 20

    Considere a equação diferencial

    dydt=t+y+1ty+3.()\frac{dy}{dt} = \frac{t + y + 1}{t - y + 3}. \qquad (*)

    Saberíamos resolver esta equação se as constantes 11 e 33 não estivessem presentes. Para eliminá-las, fazemos a substituição t=T+ht = T + h, y=Y+ky = Y + k.

    (a) Determine hh e kk de modo que ()(*) possa ser escrita na forma dYdT=T+YTY\dfrac{dY}{dT} = \dfrac{T + Y}{T - Y}.

    (b) Encontre a solução geral de ()(*). (Veja o Exercício 18.)

    Dica

    Em (a), substitua e imponha que as constantes que sobram sejam nulas — são duas equações lineares em hh e kk. Em (b), a equação reduzida é homogênea: use V=Y/TV = Y/T.

    Resolução

    Por que a substituição não muda a derivada. Como hh e kk são constantes, dT=dtdT = dt e dY=dydY = dy, de modo que dYdT=dydt\frac{dY}{dT} = \frac{dy}{dt}. A troca é uma translação dos eixos, e a inclinação da curva em cada ponto é a mesma vista de qualquer origem.

    (a) Determinação de hh e kk. Substituindo t=T+ht = T+h e y=Y+ky = Y+k:

    dYdT=T+Y+(h+k+1)TY+(hk+3).\frac{dY}{dT} = \frac{T + Y + (h + k + 1)}{T - Y + (h - k + 3)}.

    Para chegar à forma pedida basta anular as duas constantes:

    {h+k+1=0hk+3=0h=2,k=1.\begin{cases} h + k + 1 = 0 \\ h - k + 3 = 0 \end{cases} \quad\Longrightarrow\quad h = -2, \quad k = 1.

    Ou seja, T=t+2T = t + 2 e Y=y1Y = y - 1: a nova origem está em (t,y)=(2,1)(t,y) = (-2,\,1), que é precisamente onde as retas t+y+1=0t + y + 1 = 0 e ty+3=0t - y + 3 = 0 se cruzam. Não é coincidência — é o conteúdo do exercício 21.

    (b) A equação reduzida. Dividindo numerador e denominador por TT,

    dYdT=1+Y/T1Y/T,\frac{dY}{dT} = \frac{1 + Y/T}{1 - Y/T},

    que só depende de V=Y/TV = Y/T: é homogênea. Com Y=TVY = TV e Y=V+TVY' = V + TV',

    TdVdT=1+V1VV=(1+V)V(1V)1V=1+V21V.T\frac{dV}{dT} = \frac{1+V}{1-V} - V = \frac{(1+V) - V(1-V)}{1-V} = \frac{1 + V^2}{1 - V}.

    Separação e integração. Como 1+V211 + V^2 \geq 1, não se perde solução ao dividir:

    1V1+V2dV=dTTarctanV12ln(1+V2)=lnT+c.\int \frac{1-V}{1+V^2}\,dV = \int \frac{dT}{T} \quad\Longrightarrow\quad \arctan V - \frac{1}{2}\ln(1+V^2) = \ln|T| + c.

    Volta a TT e YY. Com V=Y/TV = Y/T, os dois termos logarítmicos se juntam:

    12ln ⁣(1+Y2T2)+lnT=12ln ⁣T2+Y2T2+lnT=12ln(T2+Y2),\frac{1}{2}\ln\!\left(1 + \frac{Y^2}{T^2}\right) + \ln|T| = \frac{1}{2}\ln\!\frac{T^2+Y^2}{T^2} + \ln|T| = \frac{1}{2}\ln\bigl(T^2 + Y^2\bigr),

    de modo que a solução geral, em forma implícita, é

    arctan ⁣YT=12ln(T2+Y2)+c.\arctan\!\frac{Y}{T} = \frac{1}{2}\ln\bigl(T^2 + Y^2\bigr) + c.

    Volta às variáveis originais. Com T=t+2T = t+2 e Y=y1Y = y-1,

      arctan ⁣(y1t+2)=12ln ⁣[(t+2)2+(y1)2]+c  \boxed{\; \arctan\!\left(\frac{y-1}{t+2}\right) = \frac{1}{2}\ln\!\left[(t+2)^2 + (y-1)^2\right] + c \;}

    O que essas curvas são. Em coordenadas polares centradas na nova origem — T=rcosθT = r\cos\theta, Y=rsinθY = r\sin\theta — a igualdade acima diz θ=lnr+c\theta = \ln r + c, isto é,

    r=keθ,k>0:r = k\,e^{\theta}, \qquad k > 0:

    espirais logarítmicas em torno do ponto (2,1)(-2,\,1). Escrita assim, a resposta não tem o defeito do arctan\arctan, que só distingue direções a menos de π\pi e obriga a tratar T>0T>0 e T<0T<0 em separado.

    Verificação. Para r=keθr = ke^{\theta} vale drdθ=r\frac{dr}{d\theta} = r, e

    dYdT=rsinθ+rcosθrcosθrsinθ=sinθ+cosθcosθsinθ=Y+TTY.  \frac{dY}{dT} = \frac{r'\sin\theta + r\cos\theta}{r'\cos\theta - r\sin\theta} = \frac{\sin\theta + \cos\theta}{\cos\theta - \sin\theta} = \frac{Y + T}{T - Y}. \;\checkmark

    Sobre o ponto (2,1)(-2,1). Ali numerador e denominador se anulam ao mesmo tempo: a equação assume a forma 0/00/0 e não define direção alguma. É o centro das espirais, e nenhuma solução passa por ele — todas apenas se enrolam em sua volta, com r0r \to 0 quando θ\theta \to -\infty.

  2. avançadoo teorema por trás da substituiçãoBraun §1.4, nº 21

    (a) Prove que a equação diferencial

    dydt=at+by+mct+dy+n,\frac{dy}{dt} = \frac{at + by + m}{ct + dy + n},

    onde aa, bb, cc, dd, mm e nn são constantes, sempre pode ser reduzida a dydt=at+byct+dy\dfrac{dy}{dt} = \dfrac{at+by}{ct+dy} se adbc0ad - bc \neq 0.

    (b) Resolva a equação acima no caso especial em que ad=bcad = bc.

    Dica

    Em (a), a substituição do exercício 20 leva a um sistema linear 2×22\times 2 em hh e kk cujo determinante é exatamente adbcad-bc. Em (b), a hipótese diz que (c,d)(c,d) é múltiplo de (a,b)(a,b) — então v=at+byv = at+by é a única variável que aparece.

    Resolução

    (a) O caso adbc0ad - bc \neq 0. Com t=T+ht = T+h, y=Y+ky = Y+k, e lembrando que dYdT=dydt\frac{dY}{dT} = \frac{dy}{dt},

    dYdT=aT+bY+(ah+bk+m)cT+dY+(ch+dk+n).\frac{dY}{dT} = \frac{aT + bY + (ah + bk + m)}{cT + dY + (ch + dk + n)}.

    A forma desejada se obtém exigindo que as duas constantes se anulem:

    {ah+bk=mch+dk=n.\begin{cases} ah + bk = -m \\ ch + dk = -n. \end{cases}

    Isto é um sistema linear em (h,k)(h,k) com matriz (abcd)\begin{pmatrix} a & b \\ c & d\end{pmatrix} e determinante adbcad - bc. Sendo ele não nulo, o sistema tem solução única — e, por Cramer,

    h=bndmadbc,k=cmanadbc.h = \frac{bn - dm}{ad - bc}, \qquad k = \frac{cm - an}{ad - bc}.

    Feita essa translação, a equação fica dYdT=aT+bYcT+dY\frac{dY}{dT} = \frac{aT+bY}{cT+dY}, como se queria. E ela agora é homogênea: dividindo por TT em cima e embaixo, o lado direito é a+b(Y/T)c+d(Y/T)\frac{a + b(Y/T)}{c + d(Y/T)}, função só de Y/TY/T. Pelo exercício 13, é separável.

    Leitura geométrica. adbc0ad - bc \neq 0 é exatamente a condição de as retas at+by+m=0at+by+m=0 e ct+dy+n=0ct+dy+n=0 não serem paralelas; e o par (h,k)(h,k) dado por Cramer é o ponto onde elas se cruzam. A demonstração é a versão algébrica de “mude a origem para a interseção”.

    (b) O caso ad=bcad = bc. Agora as duas retas são paralelas, não há ponto de encontro, e a translação não tem o que fazer. Mas a mesma hipótese dá o substituto: adbc=0ad - bc = 0 diz que os vetores (a,b)(a,b) e (c,d)(c,d) são proporcionais, digamos (c,d)=λ(a,b)(c,d) = \lambda(a,b), e portanto

    ct+dy=λ(at+by).ct + dy = \lambda\,(at + by).

    Numerador e denominador dependem de tt e yy só através de v=at+byv = at + by. Essa é a variável certa. De v=a+byv' = a + b\,y',

    dvdt=a+bv+mλv+n,\frac{dv}{dt} = a + b\,\frac{v + m}{\lambda v + n},

    que é separável — não sobrou nenhum tt ou yy solto do lado direito. (Se b=0b = 0, a hipótese força ad=0ad = 0; com a0a \neq 0 isso dá d=0d = 0 e a equação y=at+mct+ny' = \frac{at+m}{ct+n} se integra diretamente. Suponhamos daqui em diante a0a \neq 0 e b0b \neq 0, e escrevamos λ=c/a\lambda = c/a.)

    A conta. Multiplicando numerador e denominador por aa,

    dvdt=a+ab(v+m)cv+an=a[(b+c)v+an+bm]cv+an.\frac{dv}{dt} = a + \frac{ab(v+m)}{cv + an} = \frac{a\bigl[(b+c)v + an + bm\bigr]}{cv + an}.

    Chamando w=(b+c)v+an+bmw = (b+c)v + an + bm — de modo que w=(b+c)vw' = (b+c)v' e cv+an=cw+b(ancm)b+ccv + an = \dfrac{cw + b(an - cm)}{b+c} — a equação vira

    cw+b(ancm)wdw=a(b+c)2dt,\frac{cw + b(an-cm)}{w}\,dw = a(b+c)^2\,dt,

    e integrando,

    cw+b(ancm)lnw=a(b+c)2t+const.c\,w + b(an - cm)\ln|w| = a(b+c)^2\,t + \text{const}.

    Simplificação. Substituindo ww de volta, cw=c(b+c)(at+by)+c(an+bm)cw = c(b+c)(at+by) + c(an+bm), e o termo em tt se combina com ele:

    a(b+c)2tc(b+c)(at+by)=b(b+c)(atcy).a(b+c)^2 t - c(b+c)(at+by) = b(b+c)(at - cy).

    Absorvendo as constantes e dividindo por bb:

      (ancm)ln(b+c)(at+by)+an+bm=(b+c)(atcy)+const  \boxed{\; (an - cm)\,\ln\bigl|(b+c)(at+by) + an + bm\bigr| = (b+c)(at - cy) + \text{const}\;}

    ou, exponenciando,

    (b+c)(at+by)+an+bm=kexp ⁣[(b+c)(atcy)ancm].\bigl|(b+c)(at+by) + an + bm\bigr| = k\,\exp\!\left[\frac{(b+c)(at - cy)}{an - cm}\right].

    Os dois subcasos que a fórmula não cobre.

    • Se an=cman = cm, então ct+dy+n=ca(at+by+m)ct+dy+n = \frac{c}{a}(at+by+m): o denominador é múltiplo do numerador, ya/cy' \equiv a/c é constante e as soluções são retas.
    • Se b+c=0b + c = 0, então ww é constante e a separação fica ainda mais simples: (cv+an)dv=a(an+bm)dt(cv + an)\,dv = a(an+bm)\,dt, que integra num polinômio de segundo grau em vv, sem logaritmo nenhum. É o caso do exercício 23.
  3. intermediáriotranslação seguida de homogêneaBraun §1.4, nº 22

    Encontre a solução geral de

    (1+t2y)+(4t3y6)dydt=0.(1 + t - 2y) + (4t - 3y - 6)\frac{dy}{dt} = 0.
    Dica

    Isole yy' para reconhecer o formato do exercício 21 e teste adbcad-bc. Dá diferente de zero: transladar a origem para a interseção das duas retas e seguir com V=Y/TV = Y/T.

    Resolução

    Forma padrão.

    dydt=1+t2y4t3y6=2yt14t3y6,\frac{dy}{dt} = -\frac{1 + t - 2y}{4t - 3y - 6} = \frac{2y - t - 1}{4t - 3y - 6},

    isto é, a=1a = -1, b=2b = 2, m=1m = -1, c=4c = 4, d=3d = -3, n=6n = -6. Então

    adbc=(1)(3)(2)(4)=50,ad - bc = (-1)(-3) - (2)(4) = -5 \neq 0,

    e estamos no caso genérico do exercício 21: as retas se cruzam.

    Translação. Resolvendo h+2k1=0-h + 2k - 1 = 0 e 4h3k6=04h - 3k - 6 = 0 obtém-se h=3h = 3, k=2k = 2. Com T=t3T = t - 3 e Y=y2Y = y - 2,

    dYdT=2YT4T3Y.\frac{dY}{dT} = \frac{2Y - T}{4T - 3Y}.

    Homogênea. Com V=Y/TV = Y/T e Y=V+TVY' = V + TV',

    TdVdT=2V143VV=2V14V+3V243V=3V22V143V=(3V+1)(V1)43V.T\frac{dV}{dT} = \frac{2V - 1}{4 - 3V} - V = \frac{2V - 1 - 4V + 3V^2}{4 - 3V} = \frac{3V^2 - 2V - 1}{4 - 3V} = \frac{(3V+1)(V-1)}{4 - 3V}.

    Frações parciais. De 43V=A(V1)+B(3V+1)4 - 3V = A(V-1) + B(3V+1), avaliando em V=1V = 1 e em V=13V = -\frac13, vem B=14B = \frac14 e A=154A = -\frac{15}{4}. Logo

     ⁣[15/43V+1+1/4V1]dV=dTT54ln3V+1+14lnV1=lnT+c.\int\!\left[\frac{-15/4}{3V+1} + \frac{1/4}{V-1}\right]dV = \int\frac{dT}{T} \quad\Longrightarrow\quad -\frac{5}{4}\ln|3V+1| + \frac{1}{4}\ln|V-1| = \ln|T| + c.

    Multiplicando por 44 e exponenciando,

    V1(3V+1)5=CT4.\frac{V-1}{(3V+1)^5} = C\,T^4.

    Volta a TT e YY. Com V=Y/TV = Y/T, temos V1=YTTV - 1 = \frac{Y-T}{T} e (3V+1)5=(3Y+T)5T5(3V+1)^5 = \frac{(3Y+T)^5}{T^5}, de modo que o lado esquerdo é (YT)T4(3Y+T)5\frac{(Y-T)\,T^4}{(3Y+T)^5} — e o fator T4T^4 cancela com o da direita:

    YT=C(T+3Y)5.Y - T = C\,(T + 3Y)^5.

    Volta às variáveis originais. Com T=t3T = t-3 e Y=y2Y = y-2: YT=yt+1Y - T = y - t + 1 e T+3Y=t+3y9T + 3Y = t + 3y - 9. Portanto

      yt+1=C(t+3y9)5  \boxed{\;y - t + 1 = C\,(t + 3y - 9)^5\;}

    Verificação. Escrevendo u=t+3y9u = t+3y-9 e p=yt+1p = y-t+1, derivar p=Cu5p = Cu^5p=5Cu4u=5puup' = 5Cu^4u' = \frac{5p}{u}u', ou seja (y1)u=5p(1+3y)(y'-1)u = 5p\,(1+3y'), e daí y(u15p)=u+5py'(u - 15p) = u + 5p. Como

    u15p=4(4t3y6),u+5p=4(2yt1),u - 15p = 4(4t - 3y - 6), \qquad u + 5p = 4(2y - t - 1),

    sobra y=2yt14t3y6y' = \dfrac{2y-t-1}{4t-3y-6}. ✓

    As duas soluções que a divisão excluiu. Ao dividir por (3V+1)(V1)(3V+1)(V-1) supusemos V1V \neq 1 e V13V \neq -\frac13, isto é, descartamos as duas retas que passam pelo centro (3,2)(3,2) com essas inclinações:

    • V=1V = 1: y=t1y = t - 1. É solução — substituindo, y=1y' = 1 e o lado direito vale t3t3=1\frac{t-3}{t-3} = 1 —, e volta à família com C=0C = 0.
    • V=13V = -\frac13: t+3y9=0t + 3y - 9 = 0, ou y=9t3y = \frac{9-t}{3}. Também é solução (y=13y' = -\frac13 dos dois lados), mas nenhum CC finito a produz. Ela é o caso limite CC \to \infty, e para incluí-la basta escrever a resposta na forma recíproca
    (t+3y9)5=K(yt+1),KR,(t + 3y - 9)^5 = K\,(y - t + 1), \qquad K \in \mathbb{R},

    com K=0K = 0 dando exatamente essa reta. É a mesma situação do §1.4 nº 1 (Lista 4), em que a forma explícita perdia a solução y=1/ty = -1/t: o defeito é do passo algébrico, não da equação.

    Solução geral.

    yt+1=C(t+3y9)5,CR,y - t + 1 = C\,(t + 3y - 9)^5, \qquad C \in \mathbb{R},

    mais a reta t+3y9=0t + 3y - 9 = 0. Todas as curvas passam pelo ponto (3,2)(3,2) — o único ponto do plano onde a equação toma a forma 0/00/0.

  4. intermediárioretas paralelas: o caso degeneradoBraun §1.4, nº 23

    Encontre a solução geral de

    (t+2y+3)+(2t+4y1)dydt=0.(t + 2y + 3) + (2t + 4y - 1)\frac{dy}{dt} = 0.
    Dica

    Compare os dois parênteses: um é quase o dobro do outro. Teste adbcad-bc antes de tentar transladar — e, se der zero, use v=t+2yv = t + 2y.

    Resolução

    Por que a translação não serve. Na forma padrão,

    dydt=t2y32t+4y1,\frac{dy}{dt} = \frac{-t - 2y - 3}{2t + 4y - 1},

    temos a=1a = -1, b=2b = -2, c=2c = 2, d=4d = 4, e

    adbc=(1)(4)(2)(2)=4+4=0.ad - bc = (-1)(4) - (-2)(2) = -4 + 4 = 0.

    Estamos no caso degenerado do exercício 21(b): as retas t+2y+3=0t + 2y + 3 = 0 e 2t+4y1=02t + 4y - 1 = 0 são paralelas — a segunda é a primeira multiplicada por 22, a menos do termo constante — e não existe origem que anule as duas constantes de uma vez. Note também que b+c=0b + c = 0, o subcaso sem logaritmo.

    A substituição certa. Ambos os parênteses dependem de tt e yy só através de v=t+2yv = t + 2y: o primeiro é v+3v + 3, o segundo é 2v12v - 1. Com v=1+2yv' = 1 + 2y', isto é, y=v12y' = \frac{v'-1}{2}, a equação original vira

    (v+3)+(2v1)v12=0.(v + 3) + (2v - 1)\frac{v' - 1}{2} = 0.

    Multiplicando por 22:

    2v+6+(2v1)v(2v1)=0(2v1)dvdt+7=0.2v + 6 + (2v-1)v' - (2v - 1) = 0 \quad\Longrightarrow\quad (2v - 1)\frac{dv}{dt} + 7 = 0.

    Os termos em vv fora da derivada se cancelaram — é o que b+c=0b + c = 0 significa — e sobrou uma equação separável de integração imediata.

    Integração.

    (2v1)dv=7dtv2v=c7t.\int (2v - 1)\,dv = -\int 7\,dt \quad\Longrightarrow\quad v^2 - v = c - 7t.

    Volta às variáveis originais.

      (t+2y)2(t+2y)=c7t  \boxed{\;(t + 2y)^2 - (t + 2y) = c - 7t\;}

    que é a resposta do livro. Esta é uma solução em forma implícita, e é assim que se deixa: resolver para yy obrigaria a escolher um ramo da raiz.

    Verificação. Derivando implicitamente com v=t+2yv = t+2y: 2vvv=72vv' - v' = -7, ou (2v1)v=7(2v-1)v' = -7, com v=1+2yv' = 1 + 2y'. Substituindo, (2v1)(1+2y)=7(2v-1)(1+2y') = -7, e como 2v1=2t+4y12v - 1 = 2t+4y-1 e (2v1)+7=2t+4y+6=2(t+2y+3)(2v-1) + 7 = 2t + 4y + 6 = 2(t+2y+3), vem

    2(2t+4y1)y=7(2v1)=2(t+2y+3),2(2t+4y-1)y' = -7 - (2v-1) = -2(t+2y+3),

    isto é, (t+2y+3)+(2t+4y1)y=0(t+2y+3) + (2t+4y-1)y' = 0. ✓

    O que essas curvas são, e onde cada solução vive. Escrevendo a relação como

    t=c+vv27,t = \frac{c + v - v^2}{7},

    vê-se que, para cada cc, tt é uma parábola em vv com máximo em v=12v = \frac12, no instante

    t=c+147.t^{*} = \frac{c + \frac14}{7}.

    Cada curva de nível existe, portanto, só para ttt \leq t^{*}, e tem dois ramos — um com v>12v > \frac12, outro com v<12v < \frac12 — que se encontram nesse ponto de retorno. Cada ramo é uma solução, no intervalo (,t)(-\infty,\,t^{*}).

    O ponto de encontro é justamente onde 2t+4y1=02t + 4y - 1 = 0, a reta em que o coeficiente de yy' se anula e a equação deixa de estar na forma normal: de (2v1)v=7(2v-1)v' = -7 vem vv' \to \infty, e portanto yy' \to \infty, quando v12v \to \frac12. A curva chega ali com tangente vertical e para — o mesmo fenômeno do §1.4 nº 6 e nº 9 (Lista 4), agora causado pela reta proibida da equação.

Aula 04Braun §1.4

Equações separáveis, solução geral e intervalo de existência

A primeira metade pede a solução geral; a segunda pede a solução de um problema de valor inicial e o intervalo de existência, que é a parte que costuma ser esquecida.

A convenção usada aqui. Como nas listas lineares, integra-se entre o ponto inicial e o ponto corrente — e numa separável isso vale para os dois lados, cada um com os seus próprios limites. Escrita a equação como g(y)dydt=f(t)g(y)\,\frac{dy}{dt} = f(t) e integrando de t0t_0 a tt,

t0tg(y(s))y(s)ds=t0tf(s)ds,\int_{t_0}^{t} g\bigl(y(s)\bigr)\,y'(s)\,ds = \int_{t_0}^{t} f(s)\,ds,

e a substituição η=y(s)\eta = y(s), com dη=y(s)dsd\eta = y'(s)\,ds, transforma o lado esquerdo numa integral em η\eta cujos limites são os valores de yy:

  y0y(t)g(η)dη=t0tf(s)ds  \boxed{\;\int_{y_0}^{y(t)} g(\eta)\,d\eta = \int_{t_0}^{t} f(s)\,ds\;}

Isto é o que “separar as variáveis” significa de verdade — é uma mudança de variável, não uma manipulação de símbolos dydy e dtdt soltos. Nos problemas de valor inicial, t0t_0 e y0y_0 são dados, e a resposta sai sem nenhuma constante para determinar depois. Nos de solução geral, (t0,y0)(t_0, y_0) é um ponto qualquer por onde a solução passa, e é ele que faz o papel da constante arbitrária.

O critério do intervalo. Achada a solução, o intervalo de existência é o maior intervalo aberto que contém t0t_0 e no qual a solução está definida, é derivável e satisfaz a equação. Três coisas podem interrompê-lo: um radicando que zera, uma divisão por zero na própria equação, e uma solução que escapa para o infinito em tempo finito. Nenhuma delas aparece na equação original de forma óbvia — só a resposta revela.

Duas armadilhas reaparecem aqui, e nos dois casos por causa da divisão que a separação exige: soluções perdidas (exercícios 2, 5 e 12) e escolha de ramo da raiz ou do arco (exercícios 6 a 10).

O enunciado é do livro; a resolução é nossa. Tente antes de abrir — e confira as respostas na p. 557 do Braun.

  1. intermediárioseparação com arco-tangenteBraun §1.4, nº 1

    Encontre a solução geral de

    (1+t2)dydt=1+y2.(1+t^2)\frac{dy}{dt} = 1 + y^2.

    Sugestão do livro: tan(x+y)=tanx+tany1tanxtany\tan(x+y) = \dfrac{\tan x + \tan y}{1 - \tan x \tan y}.

    Dica

    Separe e integre entre (t0,y0)(t_0, y_0) e (t,y)(t, y): os dois lados dão arco-tangente. A sugestão serve para tirar o yy de dentro do tan\tan no fim.

    Resolução

    Separação e integração. Nenhum dos fatores se anula (1+y211+y^2 \geq 1), então dá para dividir sem perder solução. Integrando entre um ponto (t0,y0)(t_0, y_0) da solução e o ponto corrente:

    y0ydη1+η2=t0tds1+s2arctanyarctany0=arctantarctant0.\int_{y_0}^{y}\frac{d\eta}{1+\eta^2} = \int_{t_0}^{t}\frac{ds}{1+s^2} \quad\Longrightarrow\quad \arctan y - \arctan y_0 = \arctan t - \arctan t_0.

    Passando para o mesmo lado o que depende do ponto base,

    arctanyarctant=arctany0arctant0=:c,\arctan y - \arctan t = \underbrace{\arctan y_0 - \arctan t_0}_{=:\,c},

    com cc constante — é a forma implícita da solução geral.

    Forma explícita. Tomando a tangente dos dois lados e usando a fórmula da sugestão, na versão para a diferença,

    tan(arctanyarctant)=yt1+ty=tanc=:k,\tan(\arctan y - \arctan t) = \frac{y - t}{1 + ty} = \tan c =: k,

    de onde yt=k(1+ty)y - t = k(1 + ty) e, isolando yy,

    y(t)=t+k1kt.y(t) = \frac{t + k}{1 - kt}.

    Verificação. Derivando pela regra do quociente,

    y=(1kt)+k(t+k)(1kt)2=1+k2(1kt)2,y' = \frac{(1-kt) + k(t+k)}{(1-kt)^2} = \frac{1 + k^2}{(1-kt)^2},

    enquanto

    1+y2=(1kt)2+(t+k)2(1kt)2=(1+k2)(1+t2)(1kt)2,1 + y^2 = \frac{(1-kt)^2 + (t+k)^2}{(1-kt)^2} = \frac{(1+k^2)(1+t^2)}{(1-kt)^2},

    usando (1kt)2+(t+k)2=1+k2t2+t2+k2=(1+k2)(1+t2)(1-kt)^2 + (t+k)^2 = 1 + k^2t^2 + t^2 + k^2 = (1+k^2)(1+t^2). Logo (1+t2)y=1+y2(1+t^2)y' = 1+y^2. ✓

    Uma solução fora da família. A função y=1/ty = -1/t também resolve a equação — confira: (1+t2)1t2=1+1t2(1+t^2)\cdot\frac{1}{t^2} = 1 + \frac{1}{t^2} — e não se obtém de nenhum kk finito. Ela é o caso limite kk \to \infty, que corresponde a c=π/2c = \pi/2: um valor legítimo da constante cuja tangente não existe. A forma implícita arctanyarctant=c\arctan y - \arctan t = c não tem esse defeito; ele foi introduzido pelo passo algébrico que deixou tudo explícito.

    Solução geral. Na forma implícita, que é a completa,

    arctanyarctant=c,cR;\arctan y - \arctan t = c, \qquad c \in \mathbb{R};

    explicitamente, com k=tanck = \tan c,

    y(t)=t+k1kt,kR,mais o caso c=π2:  y(t)=1t.y(t) = \frac{t + k}{1 - kt}, \qquad k \in \mathbb{R}, \qquad\text{mais o caso } c = \tfrac{\pi}{2}:\; y(t) = -\frac{1}{t}.
  2. básicosolução perdida na divisãoBraun §1.4, nº 2

    Encontre a solução geral de

    dydt=(1+t)(1+y).\frac{dy}{dt} = (1+t)(1+y).
    Dica

    Já vem separada. Ao dividir por 1+y1+y, anote o que você está supondo — e volte para conferir no fim.

    Resolução

    Separação e integração. Supondo y1y \neq -1 e integrando entre (t0,y0)(t_0, y_0) e (t,y)(t, y):

    y0ydη1+η=t0t(1+s)dsln1+yln1+y0=(t+t22)(t0+t022).\int_{y_0}^{y}\frac{d\eta}{1+\eta} = \int_{t_0}^{t}(1+s)\,ds \quad\Longrightarrow\quad \ln|1+y| - \ln|1+y_0| = \left(t + \frac{t^2}{2}\right) - \left(t_0 + \frac{t_0^2}{2}\right).

    Exponenciando e juntando num único fator tudo o que depende do ponto base,

    1+y=(1+y0)exp ⁣[(t0+t022)]=:Cexp ⁣(t+t22),1 + y = \underbrace{(1+y_0)\exp\!\left[-\left(t_0 + \frac{t_0^2}{2}\right)\right]}_{=:\,C} \exp\!\left(t + \frac{t^2}{2}\right),

    isto é,

    y(t)=1+Cexp ⁣(t+t22),C0.y(t) = -1 + C\exp\!\left(t + \frac{t^2}{2}\right), \qquad C \neq 0.

    A solução perdida. A divisão excluiu y1y \equiv -1, que é solução: o lado esquerdo dá 00 e o direito, (1+t)0=0(1+t)\cdot 0 = 0. Ela é recuperada admitindo C=0C = 0 na fórmula acima — o que permite escrever, sem ressalva,

    y(t)=1+Cexp ⁣(t+t22),CR.y(t) = -1 + C\exp\!\left(t + \frac{t^2}{2}\right), \qquad C \in \mathbb{R}.

    Que a solução perdida caiba de volta na família é sorte comum, não regra: veja o exercício 12 desta mesma lista, onde ela é a única resposta e nenhum valor da constante a produz.

    Solução geral.

    y(t)=1+Cexp ⁣(t+t22),CR,tR,y(t) = -1 + C\exp\!\left(t + \frac{t^2}{2}\right), \qquad C \in \mathbb{R}, \quad t \in \mathbb{R},

    com C=0C = 0 correspondendo à solução constante y1y \equiv -1.

  3. básicofatoração antes da separaçãoBraun §1.4, nº 3

    Encontre a solução geral de

    dydt=1t+y2ty2.\frac{dy}{dt} = 1 - t + y^2 - ty^2.
    Dica

    O lado direito não parece separável — até você agrupar os termos dois a dois e fatorar.

    Resolução

    Fatoração. Agrupando,

    1t+y2ty2=(1t)+y2(1t)=(1t)(1+y2).1 - t + y^2 - ty^2 = (1-t) + y^2(1-t) = (1-t)(1+y^2).

    É a mesma estrutura do exercício 1, com (1t)(1-t) no lugar de 11+t2\frac{1}{1+t^2}.

    Separação e integração.

    y0ydη1+η2=t0t(1s)dsarctanyarctany0=(tt22)(t0t022),\int_{y_0}^{y}\frac{d\eta}{1+\eta^2} = \int_{t_0}^{t}(1-s)\,ds \quad\Longrightarrow\quad \arctan y - \arctan y_0 = \left(t - \frac{t^2}{2}\right) - \left(t_0 - \frac{t_0^2}{2}\right),

    e reunindo as constantes do ponto base em cc,

    arctany=tt22+cy(t)=tan ⁣(tt22+c).\arctan y = t - \frac{t^2}{2} + c \quad\Longrightarrow\quad y(t) = \tan\!\left(t - \frac{t^2}{2} + c\right).

    A solução vale enquanto o argumento da tangente permanecer entre dois múltiplos ímpares consecutivos de π/2\pi/2. Como tt22t - \frac{t^2}{2} tem máximo 12\frac12 em t=1t = 1 e decresce sem limite para os dois lados, toda solução acaba encontrando uma assíntota vertical — mas o enunciado pede só a forma geral.

    Solução geral.

    y(t)=tan ⁣(tt22+c),cR,y(t) = \tan\!\left(t - \frac{t^2}{2} + c\right), \qquad c \in \mathbb{R},

    em cada intervalo maximal onde o argumento fica entre dois múltiplos ímpares consecutivos de π/2\pi/2.

  4. básicoexponencial de uma somaBraun §1.4, nº 4

    Encontre a solução geral de

    dydt=exp(t+y+3).\frac{dy}{dt} = \exp(t + y + 3).
    Dica

    Exponencial de soma é produto de exponenciais — é isso que separa a equação.

    Resolução

    Separação e integração. Como exp(t+y+3)=exp(3)exp(t)exp(y)\exp(t+y+3) = \exp(3)\exp(t)\exp(y):

    y0yexp(η)dη=exp(3)t0texp(s)ds,\int_{y_0}^{y}\exp(-\eta)\,d\eta = \exp(3)\int_{t_0}^{t}\exp(s)\,ds,

    isto é,

    exp(y0)exp(y)=exp(t+3)exp(t0+3).\exp(-y_0) - \exp(-y) = \exp(t+3) - \exp(t_0+3).

    Isolando,

    exp(y)=exp(y0)+exp(t0+3)=:Kexp(t+3)y(t)=ln(Kexp(t+3)).\exp(-y) = \underbrace{\exp(-y_0) + \exp(t_0+3)}_{=:\,K} - \exp(t+3) \quad\Longrightarrow\quad y(t) = -\ln\bigl(K - \exp(t+3)\bigr).

    Onde vale. É preciso Kexp(t+3)>0K - \exp(t+3) > 0, ou seja, t<lnK3t < \ln K - 3. Note que K>0K > 0 sai de graça: é soma de duas exponenciais. Com a primitiva indefinida essa positividade teria de ser imposta à mão, como condição sobre a constante; com os limites explícitos, ela é consequência.

    Toda solução, portanto, existe apenas à esquerda de uma barreira, e y+y \to +\infty quando tt se aproxima dela — o que era de esperar: com y=exp(y)(positivo)y' = \exp(y)\cdot(\text{positivo}), quanto maior yy, mais depressa ele cresce. Nenhuma solução perdida aqui, pois exp(y)\exp(y) nunca se anula.

    Solução geral.

    y(t)=ln(Kexp(t+3)),K>0,t<lnK3.y(t) = -\ln\bigl(K - \exp(t+3)\bigr), \qquad K > 0, \quad t < \ln K - 3.
  5. intermediáriosolução implícita e soluções constantesBraun §1.4, nº 5

    Encontre a solução geral de

    cosysintdydt=sinycost.\cos y \,\sin t\, \frac{dy}{dt} = \sin y \,\cos t.
    Dica

    Junte o que é de yy de um lado e o que é de tt do outro. Os dois lados viram derivadas logarítmicas — e a divisão por siny\sin y merece nota.

    Resolução

    Separação e integração. Supondo siny0\sin y \neq 0 e sint0\sin t \neq 0:

    y0ycosηsinηdη=t0tcosssinsdslnsinylnsiny0=lnsintlnsint0.\int_{y_0}^{y}\frac{\cos\eta}{\sin\eta}\,d\eta = \int_{t_0}^{t}\frac{\cos s}{\sin s}\,ds \quad\Longrightarrow\quad \ln|\sin y| - \ln|\sin y_0| = \ln|\sin t| - \ln|\sin t_0|.

    Exponenciando e absorvendo o sinal na constante:

    siny=Csint,C=siny0sint0.\sin y = C \sin t, \qquad C = \frac{\sin y_0}{\sin t_0}.

    Esta é a solução geral em forma implícita, e é assim que se deixa: isolar y=arcsin(Csint)y = \arcsin(C\sin t) obrigaria a escolher um ramo do arco-seno e restringiria a resposta sem necessidade.

    As soluções perdidas. A divisão excluiu siny=0\sin y = 0, isto é, as constantes ynπy \equiv n\pi com nn inteiro. Todas são soluções — os dois lados da equação zeram —, e todas voltam à família fazendo C=0C = 0.

    Solução geral, em forma implícita:

    siny=Csint,CR,\sin y = C \sin t, \qquad C \in \mathbb{R},

    nos intervalos onde sint0\sin t \neq 0. O valor C=0C = 0 cobre as soluções constantes ynπy \equiv n\pi.

  6. intermediárioPVI com escolha de ramoBraun §1.4, nº 6

    Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:

    t2(1+y2)+2ydydt=0,y(0)=1.t^2(1+y^2) + 2y\,\frac{dy}{dt} = 0, \qquad y(0) = 1.
    Dica

    Separe e integre de y=1y=1 a yy à esquerda, de t=0t=0 a tt à direita — a condição inicial já entra aí. No fim, escolha o sinal da raiz olhando para y(0)y(0).

    Resolução

    Separação e integração, já com os dados iniciais nos limites.

    1y2η1+η2dη=0ts2dsln(1+y2)ln2=t33.\int_{1}^{y}\frac{2\eta}{1+\eta^2}\,d\eta = -\int_{0}^{t}s^2\,ds \quad\Longrightarrow\quad \ln(1+y^2) - \ln 2 = -\frac{t^3}{3}.

    Não precisa de módulo: 1+η2>01+\eta^2 > 0. Exponenciando,

    1+y2=2exp ⁣(t33).1 + y^2 = 2\exp\!\left(-\frac{t^3}{3}\right).

    Nenhuma constante ficou para determinar — a condição inicial foi usada no momento em que se escreveram os limites.

    Escolha do ramo. Como y(0)=1>0y(0) = 1 > 0 e a solução é contínua, ela permanece positiva enquanto existir — para trocar de sinal teria de passar por y=0y = 0, onde a equação, na forma y=t2(1+y2)2yy' = -\frac{t^2(1+y^2)}{2y}, nem está definida. Portanto

    y(t)=2exp ⁣(t33)1.y(t) = \sqrt{2\exp\!\left(-\frac{t^3}{3}\right) - 1}.

    Intervalo de existência. É preciso que o radicando seja positivo:

    2exp ⁣(t33)>1    t33>ln2    t3<3ln2    t<(3ln2)1/3.2\exp\!\left(-\frac{t^3}{3}\right) > 1 \;\Longleftrightarrow\; -\frac{t^3}{3} > -\ln 2 \;\Longleftrightarrow\; t^3 < 3\ln 2 \;\Longleftrightarrow\; t < (3\ln 2)^{1/3}.

    Para tt negativo não há obstáculo algum: exp(t3/3)\exp(-t^3/3) cresce. Logo o intervalo é

    (,  (3ln2)1/3),(3ln2)1/31,276.\left(-\infty,\;(3\ln 2)^{1/3}\right), \qquad (3\ln 2)^{1/3} \approx 1{,}276.

    À medida que tt sobe até esse valor, y0+y \to 0^+ e a derivada explode: a curva chega ao eixo com tangente vertical, e ali a equação deixa de fazer sentido.

    Solução geral da equação, em forma implícita:

    1+y2=Cexp ⁣(t33),C>0,1 + y^2 = C\exp\!\left(-\frac{t^3}{3}\right), \qquad C > 0,

    isto é, y=±Cexp(t3/3)1y = \pm\sqrt{C\exp(-t^3/3) - 1}, com o sinal fixado pelo ponto inicial e tt restrito a t<(3lnC)1/3t < (3\ln C)^{1/3}.

    Solução do PVI: C=2C = 2 e ramo positivo, no intervalo (,(3ln2)1/3)\left(-\infty,\,(3\ln 2)^{1/3}\right).

  7. intermediáriointervalo que é a reta inteiraBraun §1.4, nº 7

    Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:

    dydt=2ty+yt2,y(2)=3.\frac{dy}{dt} = \frac{2t}{y + yt^2}, \qquad y(2) = 3.
    Dica

    Fatore o denominador: y+yt2=y(1+t2)y + yt^2 = y(1+t^2). Os limites de integração são yy de 33 a yy e tt de 22 a tt. Depois verifique se o radicando chega mesmo a zerar — desta vez ele não zera.

    Resolução

    Separação e integração. Como y+yt2=y(1+t2)y + yt^2 = y(1+t^2), a equação separa em ydy=2t1+t2dty\,dy = \frac{2t}{1+t^2}\,dt, e integrando com os dados iniciais nos limites:

    3yηdη=2t2s1+s2dsy292=ln(1+t2)ln5.\int_{3}^{y}\eta\,d\eta = \int_{2}^{t}\frac{2s}{1+s^2}\,ds \quad\Longrightarrow\quad \frac{y^2 - 9}{2} = \ln(1+t^2) - \ln 5.

    Logo

    y2=9+2ln ⁣(1+t25),y^2 = 9 + 2\ln\!\left(\frac{1+t^2}{5}\right),

    e, como y(2)=3>0y(2) = 3 > 0, fica-se com o ramo positivo:

    y(t)=2ln ⁣(1+t25)+9.y(t) = \sqrt{2\ln\!\left(\frac{1+t^2}{5}\right) + 9}.

    Verificação em t=2t = 2. O logaritmo se anula e sobra 9=3\sqrt{9} = 3. ✓

    Intervalo de existência. O radicando é mínimo onde 1+t21+t^2 é mínimo, isto é, em t=0t = 0, onde vale

    2ln ⁣(15)+9=92ln55,78>0.2\ln\!\left(\frac{1}{5}\right) + 9 = 9 - 2\ln 5 \approx 5{,}78 > 0.

    Como ele nunca chega a zero — e portanto yy nunca se aproxima de 00, o único ponto onde a equação seria singular —, a solução existe para todo tt:

    (,  +).(-\infty,\;+\infty).

    Vale contrastar com o exercício anterior, de aparência parecida: lá o radicando alcançava zero em tempo finito e cortava o intervalo; aqui ele tem um piso positivo. Só a conta distingue os dois casos.

    Solução geral da equação, em forma implícita:

    y2=2ln(1+t2)+C,CR,y^2 = 2\ln(1+t^2) + C, \qquad C \in \mathbb{R},

    ou seja y=±2ln(1+t2)+Cy = \pm\sqrt{2\ln(1+t^2) + C}, com o sinal fixado pelo ponto inicial.

    Solução do PVI: C=92ln5C = 9 - 2\ln 5 e ramo positivo, em (,+)(-\infty, +\infty).

  8. intermediáriointervalo simétrico e limitadoBraun §1.4, nº 8

    Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:

    (1+t2)1/2dydt=ty3(1+t2)1/2,y(0)=1.(1+t^2)^{1/2}\frac{dy}{dt} = t y^3 (1+t^2)^{-1/2}, \qquad y(0) = 1.
    Dica

    Junte as duas potências de (1+t2)(1+t^2) antes de qualquer coisa: a equação é bem mais simples do que parece.

    Resolução

    Simplificação. Dividindo tudo por (1+t2)1/2(1+t^2)^{1/2}:

    dydt=ty31+t2.\frac{dy}{dt} = \frac{t\,y^3}{1+t^2}.

    Separação e integração. Supondo y0y \neq 0 e usando os dados iniciais como limites:

    1yη3dη=0ts1+s2ds[12η2]1y=12ln(1+t2),\int_{1}^{y}\eta^{-3}\,d\eta = \int_{0}^{t}\frac{s}{1+s^2}\,ds \quad\Longrightarrow\quad \left[-\frac{1}{2\eta^2}\right]_{1}^{y} = \frac{1}{2}\ln(1+t^2),

    isto é,

    1212y2=12ln(1+t2).\frac{1}{2} - \frac{1}{2y^2} = \frac{1}{2}\ln(1+t^2).

    Multiplicando por 22 e isolando,

    1y2=1ln(1+t2)y(t)=11ln(1+t2),\frac{1}{y^2} = 1 - \ln(1+t^2) \quad\Longrightarrow\quad y(t) = \frac{1}{\sqrt{1 - \ln(1+t^2)}},

    com o ramo positivo, porque y(0)=1>0y(0) = 1 > 0.

    Intervalo de existência. É preciso 1ln(1+t2)>01 - \ln(1+t^2) > 0:

    ln(1+t2)<1    1+t2<e    t<e1.\ln(1+t^2) < 1 \;\Longleftrightarrow\; 1 + t^2 < e \;\Longleftrightarrow\; |t| < \sqrt{e-1}.

    O intervalo é

    (e1,  e1),e11,311,\left(-\sqrt{e-1},\;\sqrt{e-1}\right), \qquad \sqrt{e-1} \approx 1{,}311,

    simétrico porque a equação só depende de tt através de t2t^2 e tdtt\,dt. Nas duas extremidades y+y \to +\infty: a solução explode em tempo finito, apesar de a equação não ter nada de singular ali. Isso é típico das não lineares — o y3y^3 é o responsável — e não acontece com equação linear alguma.

    Solução geral da equação.

    y(t)=±1Cln(1+t2),CR,mais a soluc¸a˜y0,y(t) = \pm\frac{1}{\sqrt{C - \ln(1+t^2)}}, \qquad C \in \mathbb{R}, \qquad\text{mais a solução } y \equiv 0,

    esta última perdida na divisão por y3y^3 e não recuperável por nenhum valor de CC.

    Solução do PVI: C=1C = 1 e ramo positivo, em (e1,e1)\left(-\sqrt{e-1},\,\sqrt{e-1}\right).

  9. avançadoramo negativo da raizBraun §1.4, nº 9

    Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:

    dydt=3t2+4t+22(y1),y(0)=1.\frac{dy}{dt} = \frac{3t^2 + 4t + 2}{2(y-1)}, \qquad y(0) = -1.
    Dica

    Integre de y=1y=-1 a yy e de t=0t=0 a tt; depois complete o quadrado em yy. O sinal da raiz é decidido por y(0)=1y(0) = -1, que está ABAIXO de 11.

    Resolução

    Separação e integração.

    1y2(η1)dη=0t(3s2+4s+2)ds,\int_{-1}^{y}2(\eta-1)\,d\eta = \int_{0}^{t}(3s^2+4s+2)\,ds,

    ou seja,

    [η22η]1y=[s3+2s2+2s]0t(y22y)3=t3+2t2+2t.\bigl[\eta^2 - 2\eta\bigr]_{-1}^{y} = \bigl[s^3 + 2s^2 + 2s\bigr]_{0}^{t} \quad\Longrightarrow\quad (y^2 - 2y) - 3 = t^3 + 2t^2 + 2t.

    Completando o quadrado. Somando 44 dos dois lados,

    (y1)2=t3+2t2+2t+4=(t+2)(t2+2),(y-1)^2 = t^3 + 2t^2 + 2t + 4 = (t+2)(t^2+2),

    pela fatoração por agrupamento t2(t+2)+2(t+2)t^2(t+2) + 2(t+2).

    Escolha do ramo. y1=±(t+2)(t2+2)y - 1 = \pm\sqrt{(t+2)(t^2+2)}, e como y(0)=1<1y(0) = -1 < 1 o sinal é o negativo:

    y(t)=1(t+2)(t2+2).y(t) = 1 - \sqrt{(t+2)(t^2+2)}.

    Verificação em t=0t = 0. 122=12=11 - \sqrt{2 \cdot 2} = 1 - 2 = -1. ✓

    Intervalo de existência. Como t2+2>0t^2 + 2 > 0 sempre, o radicando tem o sinal de t+2t+2, e é preciso que seja estritamente positivo: em t=2t = -2 teríamos y=1y = 1, exatamente onde o denominador da equação original se anula. Logo

    (2,  +).(-2,\;+\infty).

    Quando t2+t \to -2^+, a solução tende a 11 com derivada infinita — a curva encosta na reta y=1y = 1, que é a linha proibida da equação.

    Solução geral da equação, em forma implícita:

    (y1)2=t3+2t2+2t+C,CR,(y-1)^2 = t^3 + 2t^2 + 2t + C, \qquad C \in \mathbb{R},

    isto é, y=1±t3+2t2+2t+Cy = 1 \pm \sqrt{t^3 + 2t^2 + 2t + C}, com o sinal fixado por estar o ponto inicial acima ou abaixo da reta y=1y = 1.

    Solução do PVI: C=4C = 4 e ramo negativo, em (2,+)(-2, +\infty).

  10. avançadocondição inicial num ponto singularBraun §1.4, nº 10

    Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:

    cosydydt=tsiny1+t2,y(1)=π2.\cos y\,\frac{dy}{dt} = \frac{-t\sin y}{1+t^2}, \qquad y(1) = \frac{\pi}{2}.
    Dica

    A separação é a do exercício 5, agora com limites π/2\pi/2 e 11. O cuidado está no fim: em y=π/2y = \pi/2 o cosy\cos y zera, e vale conferir o que a equação diz exatamente no ponto inicial.

    Resolução

    Separação e integração. Supondo siny0\sin y \neq 0 e integrando de π/2\pi/2 a yy e de 11 a tt:

    π/2ycosηsinηdη=1ts1+s2ds,\int_{\pi/2}^{y}\frac{\cos\eta}{\sin\eta}\,d\eta = -\int_{1}^{t}\frac{s}{1+s^2}\,ds,

    isto é,

    lnsinylnsin(π/2)=ln1=0=12[ln(1+t2)ln2]=ln ⁣21+t2.\ln|\sin y| - \underbrace{\ln|\sin(\pi/2)|}_{=\,\ln 1\,=\,0} = -\frac{1}{2}\bigl[\ln(1+t^2) - \ln 2\bigr] = \ln\!\frac{\sqrt{2}}{\sqrt{1+t^2}}.

    Exponenciando,

    siny=21+t2,isto eˊ,y(t)=arcsin ⁣(21+t2).\sin y = \frac{\sqrt{2}}{\sqrt{1+t^2}}, \qquad\text{isto é,}\qquad y(t) = \arcsin\!\left(\frac{\sqrt{2}}{\sqrt{1+t^2}}\right).

    Intervalo de existência. O arco-seno exige 21+t21\frac{\sqrt{2}}{\sqrt{1+t^2}} \leq 1, ou seja, 1+t221 + t^2 \geq 2, ou ainda t1|t| \geq 1. Como o ponto inicial é t=1t = 1, o intervalo candidato é [1,+)[1, +\infty) — mas ele ainda não é aberto do lado esquerdo, e é aí que está o detalhe.

    O que acontece em t=1t = 1. Substituindo t=1t = 1, y=π/2y = \pi/2 na equação original: o lado esquerdo é cos(π/2)y=0\cos(\pi/2)\,y' = 0, e o direito é 112=12-\frac{1 \cdot 1}{2} = -\frac12. Não são iguais. Ou seja, não existe y(1)y'(1) finito: a solução chega ao ponto inicial com tangente vertical, e o dado y(1)=π/2y(1) = \pi/2 é atingido como limite, não como valor de uma solução derivável ali. O intervalo de existência, como solução derivável, é

    (1,  +).(1,\;+\infty).

    Nele, 21+t2<1\frac{\sqrt{2}}{\sqrt{1+t^2}} < 1, o arco-seno é derivável, e yy decresce de π/2\pi/2 rumo a 00 quando tt \to \infty.

    Sobre o ramo. y=πarcsin(21+t2)y = \pi - \arcsin\left(\frac{\sqrt2}{\sqrt{1+t^2}}\right) também satisfaz siny=2/1+t2\sin y = \sqrt2/\sqrt{1+t^2} e a mesma condição em t=1t=1, e também resolve a equação — desta vez subindo de π/2\pi/2 rumo a π\pi. O ponto inicial fica sobre a linha cosy=0\cos y = 0, onde a equação não está na forma normal y=f(t,y)y' = f(t,y) e o teorema de unicidade não se aplica; duas soluções saindo dali não contradizem coisa alguma.

    Solução geral da equação, em forma implícita:

    siny=C1+t2,CR,\sin y = \frac{C}{\sqrt{1+t^2}}, \qquad C \in \mathbb{R},

    com C=0C = 0 cobrindo as soluções constantes ynπy \equiv n\pi perdidas na divisão por siny\sin y.

    Solução do PVI: C=2C = \sqrt{2}, no ramo y=arcsin ⁣(21+t2)y = \arcsin\!\left(\frac{\sqrt2}{\sqrt{1+t^2}}\right) — ou no ramo y=πarcsin()y = \pi - \arcsin(\cdot) —, em (1,+)(1, +\infty).

  11. avançadoreação de segunda ordemBraun §1.4, nº 11

    Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:

    dydt=k(ay)(by),y(0)=0,a,b>0.\frac{dy}{dt} = k(a-y)(b-y), \qquad y(0) = 0, \quad a, b > 0.
    Dica

    Frações parciais, com os limites 00 e yy à esquerda, 00 e tt à direita. Trate à parte o caso a=ba = b, em que não há frações parciais para fazer. Suponha k>0k > 0.

    Resolução

    Caso aba \neq b. Decompondo,

    1(aη)(bη)=1ba[1aη1bη],\frac{1}{(a-\eta)(b-\eta)} = \frac{1}{b-a}\left[\frac{1}{a-\eta} - \frac{1}{b-\eta}\right],

    pois 1aη1bη=(bη)(aη)(aη)(bη)=ba(aη)(bη)\frac{1}{a-\eta} - \frac{1}{b-\eta} = \frac{(b-\eta)-(a-\eta)}{(a-\eta)(b-\eta)} = \frac{b-a}{(a-\eta)(b-\eta)}. Integrando de 00 a yy à esquerda e de 00 a tt à direita:

    1ba[lnbηaη]0y=0tkds=kt,\frac{1}{b-a}\left[\ln\left|\frac{b-\eta}{a-\eta}\right|\right]_{0}^{y} = \int_0^t k\,ds = kt,

    isto é,

    ln ⁣byaylnba=(ba)kt.\ln\!\frac{b-y}{a-y} - \ln\frac{b}{a} = (b-a)kt.

    Exponenciando,

    byay=baexp((ba)kt)=:E(t).\frac{b-y}{a-y} = \frac{b}{a}\exp\bigl((b-a)kt\bigr) =: E(t).

    Isolando yy — de by=E(ay)b - y = E(a-y) vem y(E1)=Eaby(E-1) = Ea - b

    y(t)=aE(t)bE(t)1=ab[exp((ba)kt)1]bexp((ba)kt)a.y(t) = \frac{aE(t) - b}{E(t) - 1} = \frac{ab\left[\exp\bigl((b-a)kt\bigr) - 1\right]}{b\exp\bigl((b-a)kt\bigr) - a}.

    Verificação em t=0t = 0. O numerador zera e o denominador vale ba0b - a \neq 0, logo y(0)=0y(0) = 0. ✓

    Caso a=ba = b. A equação vira y=k(ay)2y' = k(a-y)^2, e

    0ydη(aη)2=0tkds[1aη]0y=1ay1a=kt.\int_0^y \frac{d\eta}{(a-\eta)^2} = \int_0^t k\,ds \quad\Longrightarrow\quad \left[\frac{1}{a-\eta}\right]_0^y = \frac{1}{a-y} - \frac{1}{a} = kt.

    Assim 1ay=kt+1a=akt+1a\frac{1}{a-y} = kt + \frac{1}{a} = \frac{akt+1}{a}, isto é, ay=aakt+1a - y = \frac{a}{akt+1}, e

    y(t)=a2ktakt+1.y(t) = \frac{a^2kt}{akt + 1}.

    Intervalo de existência. A solução explode onde o denominador se anula. No caso aba \neq b, isso acontece em

    t=1k(ba)ln ⁣ab,t^{*} = \frac{1}{k(b-a)}\ln\!\frac{a}{b},

    que é negativo qualquer que seja a ordem entre aa e bb: se a<ba < b, o logaritmo é negativo e o fator k(ba)k(b-a) é positivo; se a>ba > b, os dois trocam de sinal juntos. O intervalo que contém t=0t = 0 é, portanto, (t,+)\left(t^{*},\,+\infty\right). No caso a=ba = b, o denominador zera em t=1ak<0t = -\frac{1}{ak} < 0, e o intervalo é (1ak,+)\left(-\frac{1}{ak},\,+\infty\right).

    Leitura do modelo. Este é o modelo de uma reação química de segunda ordem, em que yy é a quantidade de produto formado a partir de aa e bb unidades de dois reagentes. Quando t+t \to +\infty, ymin(a,b)y \to \min(a,b): a reação para quando o reagente em menor quantidade acaba — e a resposta, com todo o seu aspecto algébrico, está dizendo exatamente isso.

    Solução geral da equação. Para aba \neq b, escrevendo E(t)=Cexp((ba)kt)E(t) = C\exp\bigl((b-a)kt\bigr),

    y(t)=aE(t)bE(t)1,C0,y(t) = \frac{a\,E(t) - b}{E(t) - 1}, \qquad C \neq 0,

    mais as soluções constantes yay \equiv a e yby \equiv b, perdidas na divisão. Para a=ba = b,

    y(t)=a1kt+C,CR,y(t) = a - \frac{1}{kt + C}, \qquad C \in \mathbb{R},

    mais a constante yay \equiv a.

    Solução do PVI: C=baC = \frac{b}{a} no caso aba \neq b, com intervalo (1k(ba)lnab,+)\left(\frac{1}{k(b-a)}\ln\frac{a}{b},\,+\infty\right); e C=1aC = \frac{1}{a} no caso a=ba = b, com intervalo (1ak,+)\left(-\frac{1}{ak},\,+\infty\right).

  12. intermediárioa solução que a separação apagaBraun §1.4, nº 12

    Resolva o problema de valor inicial e determine o intervalo de existência:

    3tdydt=ycost,y(1)=0.3t\,\frac{dy}{dt} = y\cos t, \qquad y(1) = 0.
    Dica

    Antes de separar: a condição inicial é y(1)=0y(1) = 0. Tente escrever y0ydη/η\int_{y_0}^{y} d\eta/\eta com y0=0y_0 = 0 e veja o que acontece.

    Resolução

    A resposta.

    y(t)0,no intervalo (0,+).y(t) \equiv 0, \qquad \text{no intervalo } (0,\,+\infty).

    Por que. A função nula satisfaz a equação — os dois lados dão 00 — e satisfaz y(1)=0y(1) = 0.

    E ela é a única. Na forma normal, a equação é

    dydt=cost3ty,\frac{dy}{dt} = \frac{\cos t}{3t}\,y,

    que é linear homogênea com coeficiente contínuo em (0,+)(0,+\infty); pelo mesmo argumento do §1.2 nº 10 (Lista 2), a única solução com valor inicial nulo é a identicamente nula.

    Onde a separação trava. Separando, o lado esquerdo seria

    y0ydηη=1tcoss3sds,\int_{y_0}^{y}\frac{d\eta}{\eta} = \int_{1}^{t}\frac{\cos s}{3s}\,ds,

    e com y0=y(1)=0y_0 = y(1) = 0 a integral da esquerda diverge: 1/η1/\eta não é integrável perto de zero. O método não chega nem a começar — o que é mais informativo do que a versão com primitiva indefinida, em que só se percebe o problema no fim, ao notar que

    y(t)=Cexp ⁣(131tcosssds)y(t) = C\exp\!\left(\frac{1}{3}\int_1^t \frac{\cos s}{s}\,ds\right)

    nunca se anula para C0C \neq 0, e que C=0C = 0 é inadmissível porque a divisão por yy pressupôs y0y \neq 0.

    Dos dois jeitos a conclusão é a mesma: a solução do problema é justamente aquela que o primeiro passo do método descartou — o oposto do que aconteceu no exercício 2, onde a solução perdida voltava fazendo a constante igual a zero.

    Sobre o intervalo. A restrição t>0t > 0 vem do 3t3t que divide: em t=0t = 0 a equação não está na forma normal. Como o ponto inicial é t=1t = 1, o intervalo é (0,+)(0, +\infty). Que a solução seja constante e “caberia” em toda a reta não muda isso: o intervalo de existência é uma propriedade do problema, e não da aparência da fórmula.

    Solução geral da equação.

    y(t)=Cexp ⁣(131tcosssds),CR,t>0.y(t) = C\exp\!\left(\frac{1}{3}\int_1^t \frac{\cos s}{s}\,ds\right), \qquad C \in \mathbb{R}, \quad t > 0.

    A integral 1tcosssds\int_1^t \frac{\cos s}{s}\,ds não tem primitiva elementar — é o cosseno integral, a menos de constante — e fica indicada na resposta.

    Solução do PVI: C=0C = 0, isto é, y0y \equiv 0, em (0,+)(0, +\infty).

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Depois disto

Fontes deste tópico

  1. Martin Braun. Differential Equations and Their Applications: An Introduction to Applied Mathematics, 4ª ed. Springer-Verlag, 1993.

    §1.4 · p. 20-26 (PDF: p. 36–42)

    Introduz o método a partir da homogênea linear já resolvida em §1.2, e trata com cuidado a questão das soluções perdidas na divisão.

    fontes/EDO/Differential Equations and The - Braun, Martin_7579.pdf

Plataforma de estudo de matemática e suas aplicações. As fontes de cada tópico ficam listadas ao fim da respectiva página.