Os métodos vistos até aqui têm todos a mesma forma: reconheça o tipo, aplique o
procedimento. Separável? Separe. Linear? Fator integrante. O tópico de agora é
diferente, e por dois motivos.
O primeiro é que ele oferece um teste — uma conta de duas derivadas parciais
que decide, sem tentativa e erro, se um procedimento vai funcionar. O segundo é
que ele é o último. Depois dele, a lista de métodos elementares acaba, e as
equações não.
A forma diferencial
Antes do método, uma mudança de notação que muda o ponto de vista.
Quando a equação já é uma derivada
Demonstração— soluções de uma equação exata
Seja y(x) uma solução. Pela regra da cadeia,
dxd[φ(x,y(x))]=∂x∂φ+∂y∂φdxdy=M+Ndxdy=0,
a última igualdade sendo a própria equação. Uma função de derivada nula num
intervalo é constante, logo φ(x,y(x))=c.
Reciprocamente, se φ(x,y)=c define implicitamente y como função de
x numa vizinhança — o que o teorema da função implícita garante onde
∂φ/∂y=N=0 —, derivar a identidade devolve
M+Ny′=0.
∎Fim da demonstração.
O teste de exatidão
O problema é que a definição não é operacional: ela pede a existência de um
φ que ninguém sabe se existe. O teorema a seguir troca essa pergunta por
uma conta.
Demonstração— teste de exatidão (necessidade)
Suponha a equação exata, com potencial φ. Então
∂y∂M=∂y∂x∂2φ,∂x∂N=∂x∂y∂2φ.
As duas derivadas mistas são contínuas, por hipótese sobre M e N, e o
teorema de Schwarz garante que derivadas mistas contínuas comutam. Logo são
iguais.
A recíproca é construtiva: o procedimento da próxima seção, aplicado a uma
equação que passa no teste, produz o potencial. Que o procedimento não falhe
é precisamente o que a condição My=Nx assegura.
∎Fim da demonstração.
Reconstruir o potencial
O procedimento é uma integração parcial seguida de um ajuste.
(2xy+3)dx+(x2−1)dy=0
y(0)=2
Métodoexatas
M=2xy+3,N=x2−1
Identificação. A equação já veio em forma diferencial; basta ler M e N.↗ forma diferencial
∂y∂M=2x=∂x∂N
O teste. As duas derivadas coincidem, então existe potencial e o procedimento vai funcionar.↗ teste exatidao
φ(x,y)=∫(2xy+3)dx=x2y+3x+h(y)
Integrando M em relação a x, com y tratado como constante. A 'constante' de integração é qualquer função de y — derivar em x a mata do mesmo jeito.
x2+h′(y)=x2−1⟹h′(y)=−1
Agora impomos a segunda condição da definição, φy=N. É este passo que determina h, e é aqui que o teste de exatidão paga: sem ele, sobraria um x na equação para h′(y), que é impossível de satisfazer.↗ exata
h(y)=−y⟹φ(x,y)=x2y+3x−y
Integrando. A constante de h pode ser tomada nula, porque ela seria absorvida pela constante c do próximo passo.
A condição inicial: em (0,2), o lado esquerdo vale 0+0−2.
y(x)=1−x23x+2,−1<x<1
Aqui dá para isolar y, o que nem sempre acontece. Note o denominador: a solução explode em x=±1, e o intervalo de validade do PVI é (−1,1).
Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.
Quando o teste falha: o fator integrante
Se My=Nx, ainda resta a liberdade de reescrita: multiplicar a equação
por uma função μ(x,y) não muda suas soluções, mas muda M e N — e pode
tornar exata uma equação que não era.
Impor exatidão a μMdx+μNdy=0 significa exigir
(μM)y=(μN)x, ou seja
μyM−μxN=μ(Nx−My).Demonstração— fator integrante de uma variável
Procurando μ=μ(x), tem-se μy=0, e a condição de exatidão vira
−μ′(x)N=μ(Nx−My)⟹μμ′=NMy−Nx.
O lado esquerdo é função de x apenas; a hipótese é justamente a de que o
direito também é. A equação resultante é separável, e integrar dá
lnμ=∫NMy−Nxdx.
O caso μ=μ(y) é idêntico, com μx=0.
∎Fim da demonstração.
Por que não sabemos resolver quase nenhuma equação
O título da seção correspondente do livro é uma afirmação forte, e ela merece
ser levada a sério: Braun (1993), §1.9, p. 58.
O argumento tem três camadas.
Primeira: o fator integrante existe, mas não se acha. Sob hipóteses brandas,
prova-se que toda equação de primeira ordem admite fator integrante localmente.
Isso parece ótimo até se notar que encontrá-lo exige resolver a EDP acima —
e não há método geral para isso. A existência é um teorema; o cálculo, não.
Segunda: existir solução não é o mesmo que ter fórmula. O teorema de
existência e unicidade garante que a solução do PVI existe e é única sob
condições fracas. Ele não afirma, em momento algum, que essa solução se escreva
com as funções que conhecemos.
Terceira: as equações interessantes raramente colaboram. As equações que
aparecem em modelos — logística com colheita e sazonalidade, pêndulo sem
aproximação de ângulo pequeno, três corpos — não são separáveis, nem lineares,
nem exatas.
Exercícios
O terceiro exercício mostra que separáveis e lineares são casos particulares de exatas — é a arrumação retrospectiva do módulo inteiro.
básicoteste e reconstruçãono espírito de Braun §1.9
Verifique que
(2x+y2)dx+(2xy−3)dy=0
é exata e encontre a solução que passa por (1,2).
Dica
Integre M em x e não esqueça do h(y). Depois imponha φy=N.
Resolução
Teste.My=2y e Nx=2y. Iguais, logo exata. ✓
Potencial.
φ=∫(2x+y2)dx=x2+xy2+h(y).
Impondo φy=N:
2xy+h′(y)=2xy−3⟹h′(y)=−3⟹h(y)=−3y.
Portanto φ(x,y)=x2+xy2−3y, e a solução geral é
x2+xy2−3y=c.
Condição inicial. Em (1,2): 1+4−6=−1, logo
x2+xy2−3y=−1.
Sobre deixar implícito. Aqui dá para isolar y pela fórmula quadrática,
mas o resultado é feio e exige escolher o ramo certo pela condição inicial. A
forma implícita é uma resposta legítima e frequentemente preferível: ela
descreve a curva inteira, sem se comprometer com qual pedaço é gráfico de
função.
intermediáriofator integrante em yno espírito de Braun §1.9
Mostre que
ydx+(2x−yexp(y))dy=0
não é exata, encontre um fator integrante que dependa apenas de y e resolva a
equação.
Dica
Teste primeiro o quociente (My−Nx)/N; se ele depender de y, tente o outro, (Nx−My)/M.
Resolução
Teste.My=1 e Nx=2: não é exata.
Escolha do quociente. Tentando μ(x):
NMy−Nx=2x−yexp(y)−1,
que depende de x e de y — não serve. Tentando μ(y):
Integrando duas vezes por partes, ∫y2exp(y)dy=(y2−2y+2)exp(y),
logo h(y)=−(y2−2y+2)exp(y) e
xy2−(y2−2y+2)exp(y)=c.
Confira. Derive implicitamente e verifique que devolve a equação
multiplicada por y — o que é a mesma equação onde y=0. A reta y=0
foi introduzida como solução espúria pelo fator: é o preço de multiplicar por
algo que se anula.
avançadounificação dos métodosno espírito de Braun §1.9
Mostre que os dois métodos anteriores do módulo são casos particulares deste.
(a) Escreva uma equação separável y′=g(x)h(y) em forma diferencial de modo
que ela seja exata sem precisar de fator nenhum.
(b) Mostre que a equação linear y′+a(x)y=b(x) se torna exata ao ser
multiplicada por μ(x)=exp(∫adx), e identifique o
potencial φ.
(c) O que isso diz sobre a hierarquia dos métodos do módulo?
Dica
Em (a), divida por h(y) antes de escrever a forma diferencial. Em (b), calcule φ e compare com a expressão μy que aparecia no método linear.
Resolução
(a) Partindo de dy/dx=g(x)h(y) e dividindo por h(y) — que é o passo de
sempre, com a mesma hipótese h=0:
g(x)dx−h(y)1dy=0,
isto é, M=g(x) e N=−1/h(y). Então
My=0eNx=0,
porque M não tem y e N não tem x. O teste passa trivialmente.
O potencial é φ(x,y)=∫g(x)dx−∫h(y)dy, e
φ=c é exatamente a igualdade que o método de separação produz.
(b) Multiplicando (a(x)y−b(x))dx+dy=0 por μ:
μ(x)(a(x)y−b(x))dx+μ(x)dy=0.
Teste: My=μa e Nx=μ′. Como μ′=aμ por construção do fator
integrante, os dois são iguais. ✓
Potencial: φ=∫μdy=μ(x)y+h(x), e impor φx=M
dá
μ′y+h′(x)=μay−μb⟹h′(x)=−μ(x)b(x),
usando de novo μ′=aμ. Logo
φ(x,y)=μ(x)y−∫μ(x)b(x)dx,
e φ=c é μy=∫μbdx+c — literalmente o resultado do
método linear, que se obtinha reconhecendo μy como derivada de um produto.
(c) Os três métodos não são três ideias: são uma. “Reconhecer a derivada de
um produto”, no caso linear, e “integrar dos dois lados”, no separável, são duas
maneiras de dizer que a equação, depois de arrumada, é dφ=0.
Isso reorganiza o módulo, mas convém não exagerar a conclusão. A generalidade
tem um custo: nas separáveis e lineares o fator integrante é dado por fórmula,
enquanto no caso geral é preciso adivinhá-lo. Uma teoria mais geral que não
fornece um algoritmo é exatamente a situação descrita na seção anterior — e é a
razão de o capítulo terminar em métodos numéricos.
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Fontes deste tópico
Martin Braun. Differential Equations and Their Applications: An Introduction to Applied Mathematics, 4ª ed. Springer-Verlag, 1993.
§1.9 · p. 58-67 (PDF: p. 74–83)
O título da seção — "Exact equations, and why we cannot solve very many differential equations" — já entrega a lição: os métodos elementares cobrem um conjunto pequeno de equações.
fontes/EDO/Differential Equations and The - Braun, Martin_7579.pdf