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Misturas, tumores e trajetórias ortogonais

Três aplicações que se resolvem com os mesmos métodos — inclusive a geometria pedida pela ementa.

Ordem
Tipo
linear e não linear
Métodos
lineares 1a ordem, separaveis
Aplicações
problemas de mistura, crescimento tumoral, trajetórias ortogonais, geometria

Antes distoEquações lineares de primeira ordem, Equações separáveis

Os métodos de resolução acabaram — separáveis e lineares dão conta de tudo o que vem a seguir. O que este tópico exercita é a outra metade do trabalho, que é chegar à equação: um tanque de salmoura, um tumor e uma família de curvas no plano não se parecem em nada, e os três terminam na mesma caixa de ferramentas.

Misturas: o balanço de massa

O princípio é contábil, e vale para qualquer substância que entre e saia de um recipiente sem ser criada nem destruída lá dentro.

Quando as vazões de entrada e saída são iguais, o volume é constante e a equação tem coeficiente constante — foi o exercício de mistura do tópico de equações lineares. O caso interessante é o outro.

dQdt=124Q100+2t\frac{dQ}{dt} = 12 - \frac{4\,Q}{100 + 2t}
Q(0)=0Q(0) = 0

Métodofator-integrante

  1. V(t)=100+2t,entrada=12 g/minV(t) = 100 + 2t, \qquad \text{entrada} = 12 \text{ g/min}

    Montagem. O tanque tem 100100 L de água pura; entra salmoura a 22 g/L com vazão de 66 L/min, e a mistura sai a 44 L/min. Entrada: 26=122 \cdot 6 = 12 g/min. Volume: 100+(64)t100 + (6-4)t. balanco

  2. dQdt+4100+2tQ=12\frac{dQ}{dt} + \frac{4}{100 + 2t}\,Q = 12

    Forma padrão da equação linear, com a(t)=4/(100+2t)a(t) = 4/(100+2t) e b(t)=12b(t) = 12. equação linear

  3. μ(t)=exp(2ln(100+2t))=(100+2t)2\mu(t) = \exp\bigl(2\ln(100+2t)\bigr) = (100+2t)^2

    Fator integrante. A primitiva é 4dt100+2t=2ln(100+2t)\int \frac{4\,dt}{100+2t} = 2\ln(100+2t), e exponenciar um logaritmo multiplicado por 2 devolve um quadrado. fator integrante

  4. ddt[(100+2t)2Q]=12(100+2t)2\frac{d}{dt}\Bigl[(100+2t)^2\,Q\Bigr] = 12\,(100+2t)^2

    Multiplicando por μ\mu e reconhecendo a derivada do produto — os dois primeiros dos três movimentos.

  5. (100+2t)2Q=2(100+2t)3+C(100+2t)^2\,Q = 2\,(100+2t)^3 + C

    Integrando. A primitiva de (100+2t)2(100+2t)^2 é (100+2t)3/6(100+2t)^3/6, pela regra da cadeia com o fator 22 de dentro; multiplicada por 1212, dá 2(100+2t)32(100+2t)^3.

  6. C=2×106C = -2 \times 10^{6}

    A condição inicial em t=0t = 0: 1040=2106+C10^4 \cdot 0 = 2\cdot 10^6 + C.

  7.   Q(t)=2(100+2t)2×106(100+2t)2  \boxed{\;Q(t) = 2\,(100 + 2t) - \frac{2 \times 10^{6}}{(100+2t)^2}\;}

    Isolando QQ. O primeiro termo é a quantidade de sal que o tanque teria se já estivesse na concentração de entrada; o segundo é a memória da água pura inicial.

Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.

Tumores: o modelo de Gompertz

Um tumor sólido em fase inicial cresce por divisão celular, e cada célula se divide independentemente das outras — que é exatamente a hipótese malthusiana. Só que dados clínicos não mostram crescimento exponencial: a taxa relativa de crescimento cai com o tempo, à medida que o tumor supera a capacidade dos vasos de irrigá-lo e forma um núcleo mal nutrido.

O modelo de Gompertz incorpora isso da forma mais econômica possível: mantém a equação malthusiana e faz o coeficiente decair.

dVdt=λ0exp(αt)V\frac{dV}{dt} = \lambda_0\exp(-\alpha t)\,V
V(0)=V0V(0) = V_0

Métodoseparaveis

  1. dVV=λ0exp(αt)dt\frac{dV}{V} = \lambda_0\exp(-\alpha t)\,dt

    Separável, com g(t)=λ0exp(αt)g(t) = \lambda_0\exp(-\alpha t) e h(V)=Vh(V) = V. Como sempre, V0V \equiv 0 é o zero de hh — o tumor inexistente, que não interessa. separacao

  2. lnV=λ0αexp(αt)+C1\ln V = -\frac{\lambda_0}{\alpha}\exp(-\alpha t) + C_1

    Integrando. A primitiva de exp(αt)\exp(-\alpha t) é exp(αt)/α-\exp(-\alpha t)/\alpha; como V>0V > 0, o módulo do logaritmo é dispensável.

  3. C1=lnV0+λ0αC_1 = \ln V_0 + \frac{\lambda_0}{\alpha}

    Em t=0t = 0: lnV0=λ0/α+C1\ln V_0 = -\lambda_0/\alpha + C_1, o que determina C1C_1.

  4.   V(t)=V0exp ⁣[λ0α(1exp(αt))]  \boxed{\;V(t) = V_0\exp\!\left[\frac{\lambda_0}{\alpha}\Bigl(1 - \exp(-\alpha t)\Bigr)\right]\;}

    Substituindo e exponenciando. O expoente foi agrupado de modo a se anular em t=0t = 0, o que torna a fórmula fácil de conferir.

Demonstração— volume limite de Gompertz

Quando tt \to \infty, exp(αt)0\exp(-\alpha t) \to 0, e o colchete no expoente tende a 11. Por continuidade da exponencial, VV0exp(λ0/α)V \to V_0\exp(\lambda_0/\alpha).

Fim da demonstração.

Há uma reescrita que torna o modelo bem mais informativo.

Demonstração— forma autônoma de Gompertz

Da solução, lnV=lnV0+λ0α(1exp(αt))\ln V = \ln V_0 + \frac{\lambda_0}{\alpha}\bigl(1 - \exp(-\alpha t)\bigr), e da proposição anterior, lnV=lnV0+λ0/α\ln V_\infty = \ln V_0 + \lambda_0/\alpha. Subtraindo:

ln ⁣(VV)=λ0αexp(αt).\ln\!\left(\frac{V_\infty}{V}\right) = \frac{\lambda_0}{\alpha}\exp(-\alpha t).

Multiplicando por αV\alpha V, o lado direito vira λ0exp(αt)V\lambda_0\exp(-\alpha t)V, que é justamente dV/dtdV/dt.

Fim da demonstração.

Sendo autônoma, a equação tem campo de direções. Abaixo, com V=10V_\infty = 10; a expressão usa log no sentido de logaritmo natural.

Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.

Trajetórias ortogonais

A terceira aplicação não vem da física nem da biologia: é geometria, e é o item da ementa que fala em “modelos referentes à geometria”.

A ideia que resolve o problema é que uma família de curvas e uma equação diferencial são a mesma informação vista de dois lados. Uma família a um parâmetro F(x,y)=cF(x,y) = c tem, em cada ponto, uma inclinação bem definida — e essa inclinação não depende de cc, porque cc é determinado pelo próprio ponto.

Demonstração— método das trajetórias ortogonais

Duas retas de inclinações m1m_1 e m2m_2 são perpendiculares se e somente se m1m2=1m_1 m_2 = -1. Duas curvas se cruzam em ângulo reto quando suas retas tangentes no ponto de cruzamento o fazem.

Se num ponto (x,y)(x,y) a curva da família original tem inclinação f(x,y)f(x,y), a trajetória ortogonal que passa por ali precisa ter inclinação 1/f(x,y)-1/f(x,y). Impor isso em todo ponto é exatamente escrever a equação diferencial do enunciado.

Fim da demonstração.

Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.

O que os três problemas têm em comum

Nenhum dos três exigiu um método novo. O tanque virou uma linear, o tumor uma separável, a geometria uma separável — tudo já disponível desde os primeiros tópicos.

O trabalho estava antes: decidir que a concentração de saída é Q/VQ/V, que a taxa relativa decai exponencialmente, que a perpendicularidade se escreve m1m2=1m_1m_2 = -1. É a modelagem que distingue os problemas; a resolução, a essa altura, é rotina.

E é bom que seja rotina — porque no próximo tópico a rotina acaba.

Exercícios

O segundo exercício tem contas de exponencial que vale fazer com calculadora; o terceiro é o exemplo clássico de duas famílias de círculos ortogonais.

  1. básicolavagem de tanqueno espírito de Braun §1.8

    Um tanque contém 200200 L de salmoura com 2020 kg de sal dissolvido. A partir de t=0t = 0 entra água pura a 55 L/min, e a mistura homogênea sai à mesma vazão.

    (a) Encontre Q(t)Q(t).

    (b) Quanto tempo leva para restar metade do sal?

    (c) Que fenômeno já visto no curso tem exatamente esta equação?

    Dica

    Sem sal na entrada, a taxa de entrada é zero — e a equação fica homogênea.

    Resolução

    (a) O volume é constante em 200200 L. A entrada não traz sal, e a saída leva 5Q/200=Q/405 \cdot Q/200 = Q/40 kg/min:

    dQdt=Q40,Q(0)=20.\frac{dQ}{dt} = -\frac{Q}{40}, \qquad Q(0) = 20.

    É linear homogênea (e separável), com solução

    Q(t)=20exp(t/40) kg.Q(t) = 20\exp(-t/40) \text{ kg}.

    (b) Metade quando exp(t/40)=1/2\exp(-t/40) = 1/2:

    t=40ln227,7 min.t = 40\ln 2 \approx 27{,}7 \text{ min}.

    (c) É o decaimento radioativo, com λ=1/40\lambda = 1/40 por minuto — e os 27,727{,}7 minutos são a meia-vida do sal neste tanque.

    A coincidência não é acidental: em ambos os casos a taxa de perda é proporcional à quantidade presente. No tanque, porque quanto mais sal há, mais sal cada litro que sai leva embora.

  2. intermediáriocrescimento de Gompertzno espírito de Braun §1.8

    Um tumor segue o modelo de Gompertz com λ0=0,3\lambda_0 = 0{,}3 por mês e α=0,1\alpha = 0{,}1 por mês.

    (a) Por quanto o volume terá se multiplicado quando o crescimento cessar?

    (b) Quanto tempo leva para o volume chegar à média geométrica entre V0V_0 e VV_\infty, isto é, ao ponto em que lnV\ln V está a meio caminho?

    (c) Que fração do volume final o tumor terá atingido em um ano?

    Dica

    Trabalhe com ln(V/V0)\ln(V/V_0), não com VV: no expoente tudo fica linear e as contas ficam curtas.

    Resolução

    Escrevendo u(t)=ln(V/V0)u(t) = \ln(V/V_0), a solução diz

    u(t)=λ0α(1exp(αt))=3(1exp(0,1t)),u(t) = \frac{\lambda_0}{\alpha}\bigl(1 - \exp(-\alpha t)\bigr) = 3\bigl(1 - \exp(-0{,}1t)\bigr),

    e u=3u_\infty = 3.

    (a) V/V0=exp(3)20,1V_\infty/V_0 = \exp(3) \approx 20{,}1. O tumor multiplica seu volume por cerca de 2020.

    (b) “Meio caminho em lnV\ln V” significa u=1,5u = 1{,}5:

    3(1exp(0,1t))=1,5exp(0,1t)=12t=10ln26,93 meses.3\bigl(1 - \exp(-0{,}1t)\bigr) = 1{,}5 \quad\Longrightarrow\quad \exp(-0{,}1t) = \tfrac{1}{2} \quad\Longrightarrow\quad t = 10\ln 2 \approx 6{,}93 \text{ meses}.

    (c) Em t=12t = 12:

    u(12)=3(1exp(1,2))=3(10,3012)=2,096,u(12) = 3\bigl(1 - \exp(-1{,}2)\bigr) = 3\,(1 - 0{,}3012) = 2{,}096,

    logo V(12)/V0=exp(2,096)8,14V(12)/V_0 = \exp(2{,}096) \approx 8{,}14, e

    V(12)V=8,1420,10,405.\frac{V(12)}{V_\infty} = \frac{8{,}14}{20{,}1} \approx 0{,}405.

    Cerca de 40%40\% do volume final em um ano.

    O que salta aos olhos. Em 6,96{,}9 meses o tumor percorreu metade do caminho na escala logarítmica, mas isso corresponde a apenas exp(1,5)/exp(3)=exp(1,5)22%\exp(1{,}5)/\exp(3) = \exp(-1{,}5) \approx 22\% do volume final. Metade em lnV\ln V não é metade em VV — e como o que se mede clinicamente é volume, o crescimento parece continuar acelerado muito depois de o processo já ter “virado”.

  3. avançadofamílias ortogonais de círculosno espírito de Braun §1.8

    Considere a família de círculos

    x2+y2=cx.x^2 + y^2 = c\,x.

    (a) Identifique geometricamente essa família.

    (b) Encontre a EDO da família, eliminando cc.

    (c) Escreva a EDO das trajetórias ortogonais e verifique que a família x2+y2=kyx^2 + y^2 = k\,y a satisfaz.

    (d) Interprete o resultado.

    Dica

    Em (a), complete o quadrado. Em (c), a verificação é mais barata que a resolução — derive implicitamente e substitua kk.

    Resolução

    (a) Completando o quadrado:

    (xc2)2+y2=(c2)2.\left(x - \frac{c}{2}\right)^2 + y^2 = \left(\frac{c}{2}\right)^2.

    São círculos de centro (c/2,0)(c/2, 0) e raio c/2|c|/2: todos passam pela origem e são tangentes ao eixo yy ali.

    (b) Derivando x2+y2=cxx^2 + y^2 = cx implicitamente:

    2x+2yy=c.2x + 2y\,y' = c.

    Da equação da família, c=(x2+y2)/xc = (x^2+y^2)/x. Substituindo:

    2yy=x2+y2x2x=y2x2x,dondey=y2x22xy.2y\,y' = \frac{x^2+y^2}{x} - 2x = \frac{y^2 - x^2}{x}, \qquad\text{donde}\qquad y' = \frac{y^2 - x^2}{2xy}.

    (c) As trajetórias ortogonais satisfazem

    dydx=2xyy2x2=2xyx2y2.\frac{dy}{dx} = -\frac{2xy}{y^2 - x^2} = \frac{2xy}{x^2 - y^2}.

    Verificando a família proposta: de x2+y2=kyx^2 + y^2 = ky, derivando,

    2x+2yy=kyy(2yk)=2x.2x + 2y\,y' = k\,y' \quad\Longrightarrow\quad y'\,(2y - k) = -2x.

    Da equação da família, k=(x2+y2)/yk = (x^2+y^2)/y, logo

    2yk=2yx2+y2y=y2x2y,2y - k = 2y - \frac{x^2+y^2}{y} = \frac{y^2 - x^2}{y},

    e portanto

    y=2x(y2x2)/y=2xyy2x2=2xyx2y2.y' = \frac{-2x}{(y^2-x^2)/y} = \frac{-2xy}{y^2 - x^2} = \frac{2xy}{x^2 - y^2}.

    É a equação das trajetórias ortogonais. ✓

    (d) A segunda família é x2+(yk/2)2=(k/2)2x^2 + (y - k/2)^2 = (k/2)^2: círculos centrados no eixo yy, todos passando pela origem, tangentes ao eixo xx.

    Ou seja, as duas famílias são a mesma coisa girada de 9090^\circ, e cada círculo de uma corta cada círculo da outra em ângulo reto. É a configuração das linhas de campo e das equipotenciais de um dipolo — o mesmo desenho aparece em livros de eletromagnetismo, obtido por outro caminho.

    Repare no que a verificação economizou: resolver y=2xy/(x2y2)y' = 2xy/(x^2-y^2) diretamente exigiria reconhecê-la como homogênea e fazer a substituição v=y/xv = y/x. Quando a resposta é dada, conferir é sempre mais barato do que deduzir — e é honesto, desde que a conferência seja completa.

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Fontes deste tópico

  1. Martin Braun. Differential Equations and Their Applications: An Introduction to Applied Mathematics, 4ª ed. Springer-Verlag, 1993.

    §1.8 · p. 52-58 (PDF: p. 68–74)

    Reúne mistura em tanques, modelo de Gompertz para tumores e trajetórias ortogonais. É a seção que fecha a parte de "modelos de geometria" da ementa.

    fontes/EDO/Differential Equations and The - Braun, Martin_7579.pdf

Plataforma de estudo de matemática e suas aplicações. As fontes de cada tópico ficam listadas ao fim da respectiva página.