Os métodos de resolução acabaram — separáveis e lineares dão conta de tudo o que
vem a seguir. O que este tópico exercita é a outra metade do trabalho, que é
chegar à equação: um tanque de salmoura, um tumor e uma família de curvas no
plano não se parecem em nada, e os três terminam na mesma caixa de ferramentas.
Misturas: o balanço de massa
O princípio é contábil, e vale para qualquer substância que entre e saia de um
recipiente sem ser criada nem destruída lá dentro.
Quando as vazões de entrada e saída são iguais, o volume é constante e a
equação tem coeficiente constante — foi o exercício de
mistura do tópico de
equações lineares. O caso interessante é o outro.
dtdQ=12−100+2t4Q
Q(0)=0
Métodofator-integrante
V(t)=100+2t,entrada=12 g/min
Montagem. O tanque tem 100 L de água pura; entra salmoura a 2 g/L com vazão de 6 L/min, e a mistura sai a 4 L/min. Entrada: 2⋅6=12 g/min. Volume: 100+(6−4)t.↗ balanco
dtdQ+100+2t4Q=12
Forma padrão da equação linear, com a(t)=4/(100+2t) e b(t)=12.↗ equação linear
μ(t)=exp(2ln(100+2t))=(100+2t)2
Fator integrante. A primitiva é ∫100+2t4dt=2ln(100+2t), e exponenciar um logaritmo multiplicado por 2 devolve um quadrado.↗ fator integrante
dtd[(100+2t)2Q]=12(100+2t)2
Multiplicando por μ e reconhecendo a derivada do produto — os dois primeiros dos três movimentos.
(100+2t)2Q=2(100+2t)3+C
Integrando. A primitiva de (100+2t)2 é (100+2t)3/6, pela regra da cadeia com o fator 2 de dentro; multiplicada por 12, dá 2(100+2t)3.
C=−2×106
A condição inicial em t=0: 104⋅0=2⋅106+C.
Q(t)=2(100+2t)−(100+2t)22×106
Isolando Q. O primeiro termo é a quantidade de sal que o tanque teria se já estivesse na concentração de entrada; o segundo é a memória da água pura inicial.
Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.
Tumores: o modelo de Gompertz
Um tumor sólido em fase inicial cresce por divisão celular, e cada célula se
divide independentemente das outras — que é exatamente a hipótese malthusiana.
Só que dados clínicos não mostram crescimento exponencial: a taxa relativa
de crescimento cai com o tempo, à medida que o tumor supera a capacidade dos
vasos de irrigá-lo e forma um núcleo mal nutrido.
O modelo de Gompertz incorpora isso da forma mais econômica possível: mantém a
equação malthusiana e faz o coeficiente decair.
dtdV=λ0exp(−αt)V
V(0)=V0
Métodoseparaveis
VdV=λ0exp(−αt)dt
Separável, com g(t)=λ0exp(−αt) e h(V)=V. Como sempre, V≡0 é o zero de h — o tumor inexistente, que não interessa.↗ separacao
lnV=−αλ0exp(−αt)+C1
Integrando. A primitiva de exp(−αt) é −exp(−αt)/α; como V>0, o módulo do logaritmo é dispensável.
C1=lnV0+αλ0
Em t=0: lnV0=−λ0/α+C1, o que determina C1.
V(t)=V0exp[αλ0(1−exp(−αt))]
Substituindo e exponenciando. O expoente foi agrupado de modo a se anular em t=0, o que torna a fórmula fácil de conferir.
Demonstração— volume limite de Gompertz
Quando t→∞, exp(−αt)→0, e o colchete no expoente tende a
1. Por continuidade da exponencial, V→V0exp(λ0/α).
∎Fim da demonstração.
Há uma reescrita que torna o modelo bem mais informativo.
Demonstração— forma autônoma de Gompertz
Da solução, lnV=lnV0+αλ0(1−exp(−αt)),
e da proposição anterior, lnV∞=lnV0+λ0/α. Subtraindo:
ln(VV∞)=αλ0exp(−αt).
Multiplicando por αV, o lado direito vira λ0exp(−αt)V,
que é justamente dV/dt.
∎Fim da demonstração.
Sendo autônoma, a equação tem campo de direções. Abaixo, com V∞=10; a
expressão usa log no sentido de logaritmo natural.
Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.
Trajetórias ortogonais
A terceira aplicação não vem da física nem da biologia: é geometria, e é o
item da ementa que fala em “modelos referentes à geometria”.
A ideia que resolve o problema é que uma família de curvas e uma equação
diferencial são a mesma informação vista de dois lados. Uma família a um
parâmetro F(x,y)=c tem, em cada ponto, uma inclinação bem definida — e essa
inclinação não depende de c, porque c é determinado pelo próprio ponto.
Demonstração— método das trajetórias ortogonais
Duas retas de inclinações m1 e m2 são perpendiculares se e somente se
m1m2=−1. Duas curvas se cruzam em ângulo reto quando suas retas
tangentes no ponto de cruzamento o fazem.
Se num ponto (x,y) a curva da família original tem inclinação f(x,y), a
trajetória ortogonal que passa por ali precisa ter inclinação −1/f(x,y).
Impor isso em todo ponto é exatamente escrever a equação diferencial do
enunciado.
∎Fim da demonstração.
Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.
O que os três problemas têm em comum
Nenhum dos três exigiu um método novo. O tanque virou uma linear, o tumor uma
separável, a geometria uma separável — tudo já disponível desde os primeiros
tópicos.
O trabalho estava antes: decidir que a concentração de saída é Q/V, que a taxa
relativa decai exponencialmente, que a perpendicularidade se escreve
m1m2=−1. É a modelagem que distingue os problemas; a resolução, a essa
altura, é rotina.
E é bom que seja rotina — porque no próximo tópico a rotina acaba.
Exercícios
O segundo exercício tem contas de exponencial que vale fazer com calculadora; o terceiro é o exemplo clássico de duas famílias de círculos ortogonais.
básicolavagem de tanqueno espírito de Braun §1.8
Um tanque contém 200 L de salmoura com 20 kg de sal dissolvido. A partir de
t=0 entra água pura a 5 L/min, e a mistura homogênea sai à mesma
vazão.
(a) Encontre Q(t).
(b) Quanto tempo leva para restar metade do sal?
(c) Que fenômeno já visto no curso tem exatamente esta equação?
Dica
Sem sal na entrada, a taxa de entrada é zero — e a equação fica homogênea.
Resolução
(a) O volume é constante em 200 L. A entrada não traz sal, e a saída leva
5⋅Q/200=Q/40 kg/min:
dtdQ=−40Q,Q(0)=20.
É linear homogênea (e separável), com solução
Q(t)=20exp(−t/40) kg.
(b) Metade quando exp(−t/40)=1/2:
t=40ln2≈27,7 min.
(c) É o decaimento radioativo, com λ=1/40 por minuto — e os
27,7 minutos são a meia-vida do sal neste tanque.
A coincidência não é acidental: em ambos os casos a taxa de perda é
proporcional à quantidade presente. No tanque, porque quanto mais sal há, mais
sal cada litro que sai leva embora.
intermediáriocrescimento de Gompertzno espírito de Braun §1.8
Um tumor segue o modelo de Gompertz com λ0=0,3 por mês e
α=0,1 por mês.
(a) Por quanto o volume terá se multiplicado quando o crescimento cessar?
(b) Quanto tempo leva para o volume chegar à média geométrica entre V0 e
V∞, isto é, ao ponto em que lnV está a meio caminho?
(c) Que fração do volume final o tumor terá atingido em um ano?
Dica
Trabalhe com ln(V/V0), não com V: no expoente tudo fica linear e as contas ficam curtas.
Resolução
Escrevendo u(t)=ln(V/V0), a solução diz
u(t)=αλ0(1−exp(−αt))=3(1−exp(−0,1t)),
e u∞=3.
(a)V∞/V0=exp(3)≈20,1. O tumor multiplica seu volume
por cerca de 20.
O que salta aos olhos. Em 6,9 meses o tumor percorreu metade do
caminho na escala logarítmica, mas isso corresponde a apenas
exp(1,5)/exp(3)=exp(−1,5)≈22% do volume final. Metade em
lnV não é metade em V — e como o que se mede clinicamente é volume, o
crescimento parece continuar acelerado muito depois de o processo já ter
“virado”.
avançadofamílias ortogonais de círculosno espírito de Braun §1.8
Considere a família de círculos
x2+y2=cx.
(a) Identifique geometricamente essa família.
(b) Encontre a EDO da família, eliminando c.
(c) Escreva a EDO das trajetórias ortogonais e verifique que a família
x2+y2=ky a satisfaz.
(d) Interprete o resultado.
Dica
Em (a), complete o quadrado. Em (c), a verificação é mais barata que a resolução — derive implicitamente e substitua k.
Resolução
(a) Completando o quadrado:
(x−2c)2+y2=(2c)2.
São círculos de centro (c/2,0) e raio ∣c∣/2: todos passam pela origem e
são tangentes ao eixo y ali.
(b) Derivando x2+y2=cx implicitamente:
2x+2yy′=c.
Da equação da família, c=(x2+y2)/x. Substituindo:
2yy′=xx2+y2−2x=xy2−x2,dondey′=2xyy2−x2.
(c) As trajetórias ortogonais satisfazem
dxdy=−y2−x22xy=x2−y22xy.
Verificando a família proposta: de x2+y2=ky, derivando,
2x+2yy′=ky′⟹y′(2y−k)=−2x.
Da equação da família, k=(x2+y2)/y, logo
2y−k=2y−yx2+y2=yy2−x2,
e portanto
y′=(y2−x2)/y−2x=y2−x2−2xy=x2−y22xy.
É a equação das trajetórias ortogonais. ✓
(d) A segunda família é x2+(y−k/2)2=(k/2)2: círculos centrados no
eixo y, todos passando pela origem, tangentes ao eixo x.
Ou seja, as duas famílias são a mesma coisa girada de 90∘, e cada círculo de
uma corta cada círculo da outra em ângulo reto. É a configuração das linhas de
campo e das equipotenciais de um dipolo — o mesmo desenho aparece em livros de
eletromagnetismo, obtido por outro caminho.
Repare no que a verificação economizou: resolver y′=2xy/(x2−y2)
diretamente exigiria reconhecê-la como homogênea e fazer a substituição
v=y/x. Quando a resposta é dada, conferir é sempre mais barato do que
deduzir — e é honesto, desde que a conferência seja completa.
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Fontes deste tópico
Martin Braun. Differential Equations and Their Applications: An Introduction to Applied Mathematics, 4ª ed. Springer-Verlag, 1993.
§1.8 · p. 52-58 (PDF: p. 68–74)
Reúne mistura em tanques, modelo de Gompertz para tumores e trajetórias ortogonais. É a seção que fecha a parte de "modelos de geometria" da ementa.
fontes/EDO/Differential Equations and The - Braun, Martin_7579.pdf