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Equações lineares de primeira ordem

O fator integrante transforma um lado inteiro da equação na derivada de um produto — e aí basta integrar.

Ordem
Tipo
linear
Métodos
lineares 1a ordem, fator integrante
Aplicações
problemas de mistura

Antes distoO que é uma equação diferencial

Entre todas as equações de primeira ordem, as lineares são as que sabemos resolver por completo. Não é sorte: a linearidade é exatamente a propriedade que permite reorganizar a equação até que um dos lados seja a derivada de alguma coisa reconhecível.

Primeiro o caso mais simples

Quando b(t)=0b(t) = 0, a equação se chama homogênea, e cai direto no que já sabemos fazer.

dydt+a(t)y=0\frac{dy}{dt} + a(t)\,y = 0

Métodolineares-1a-ordem

  1. 1ydydt=a(t)\frac{1}{y}\frac{dy}{dt} = -a(t)

    Dividindo por yy, o que exige y0y \neq 0 — a solução de equilíbrio y0y \equiv 0 fica de fora por enquanto.

  2. ddtlny(t)=a(t)\frac{d}{dt}\ln|y(t)| = -a(t)

    O lado esquerdo já é uma derivada disfarçada: pela regra da cadeia, ddtlny(t)=yy\frac{d}{dt}\ln|y(t)| = \frac{y'}{y}.

  3. lny(t)=a(t)dt+c1\ln|y(t)| = -\int a(t)\,dt + c_1

    Integrando os dois lados. Agora é só cálculo de primitiva.

  4. y(t)=cexp(a(t)dt),cRy(t) = c\,\exp\left(-\int a(t)\,dt\right), \qquad c \in \mathbb{R}

    Exponenciando. A constante cc absorve o sinal, e c=0c = 0 recupera a solução y0y \equiv 0 que a divisão havia descartado.

O caso geral: o fator integrante

Com b(t)0b(t) \neq 0 o truque anterior não funciona — não dá para separar yy de tt. A saída é multiplicar a equação inteira por uma função escolhida a dedo.

Demonstração— fator integrante

Pela regra do produto,

ddt[μ(t)y(t)]=μ(t)dydt+μ(t)y(t).\frac{d}{dt}\bigl[\mu(t)y(t)\bigr] = \mu(t)\frac{dy}{dt} + \mu'(t)\,y(t).

Basta então que μ(t)=a(t)μ(t)\mu'(t) = a(t)\mu(t). Mas essa é a equação homogênea que acabamos de resolver, com solução μ(t)=exp(a(t)dt)\mu(t) = \exp\left(\int a(t)\,dt\right) — tomando a constante igual a 1, já que qualquer múltiplo serve.

Fim da demonstração.

Não decore a fórmula

Dá para levar a conta até o fim e obter uma expressão fechada para y(t)y(t). O próprio Braun recomenda não memorizá-la:

“The reader should not memorize formulae (11) and (12). Rather, we will solve all nonhomogeneous equations by first multiplying both sides by μ(t)\mu(t), by writing the new left-hand side as the derivative of μ(t)y(t)\mu(t)y(t), and then by integrating both sides of the equation.”Braun (1993), §1.2, p. 8

São três movimentos, e é isso que vale reter: multiplicar por μ\mu, reconhecer a derivada do produto, integrar.

Um exemplo completo

dydt+2ty=t2\frac{dy}{dt} + \frac{2}{t}\,y = t^2
y(1)=1,t>0y(1) = 1, \quad t > 0

Métodofator-integrante

  1. a(t)=2t,b(t)=t2a(t) = \frac{2}{t}, \qquad b(t) = t^2

    Identificando a equação na forma padrão: aqui a(t)=2/ta(t) = 2/t e b(t)=t2b(t) = t^2. linear 1a

  2. μ(t)=exp(2tdt)=exp(2lnt)=t2\mu(t) = \exp\left(\int \frac{2}{t}\,dt\right) = \exp(2\ln t) = t^2

    Calculando o fator integrante. Como t>0t > 0, vale lnt=lnt\ln|t| = \ln t. fator integrante

  3. t2dydt+2ty=t4t^2\frac{dy}{dt} + 2t\,y = t^4

    Multiplicando a equação inteira por μ\mu. Primeiro dos três movimentos.

  4. ddt[t2y]=t4\frac{d}{dt}\bigl[t^2 y\bigr] = t^4

    Reconhecendo o lado esquerdo como derivada de um produto — segundo movimento. É este passo que o fator integrante existe para viabilizar. fator integrante

  5. t2y=t55+Ct^2 y = \frac{t^5}{5} + C

    Terceiro movimento: integrar os dois lados.

  6. y(t)=t35+Ct2y(t) = \frac{t^3}{5} + \frac{C}{t^2}

    Isolando yy. Esta é a solução geral, com a família inteira parametrizada por CC.

  7. 15+C=1C=45\frac{1}{5} + C = 1 \quad\Longrightarrow\quad C = \frac{4}{5}

    Aplicando a condição inicial: y(1)=1/5+Cy(1) = 1/5 + C.

  8.   y(t)=t35+45t2  \boxed{\;y(t) = \frac{t^3}{5} + \frac{4}{5t^2}\;}

    Conferindo, que aqui é barato: derive e substitua. Vale sempre fazer — verificar é possível mesmo quando resolver não é.

O campo de direções abaixo mostra a família. Repare no comportamento perto de t=0t = 0: o termo C/t2C/t^2 explode, e é por isso que o problema só faz sentido em t>0t > 0.

Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.

Exercícios

Todos têm resolução escondida. Tente antes de abrir — o erro é a parte útil.

  1. básicofator integrante com coeficiente constanteno espírito de Braun §1.2

    Resolva o problema de valor inicial

    dydt+3y=6,y(0)=1.\frac{dy}{dt} + 3y = 6, \qquad y(0) = 1.
    Dica

    Coeficiente constante: o fator integrante é uma exponencial simples.

    Resolução

    a(t)=3a(t) = 3, logo μ(t)=exp(3t)\mu(t) = \exp(3t). Multiplicando:

    ddt[exp(3t)y]=6exp(3t)exp(3t)y=2exp(3t)+Cy=2+Cexp(3t).\frac{d}{dt}\bigl[\exp(3t)y\bigr] = 6\exp(3t) \quad\Longrightarrow\quad \exp(3t)y = 2\exp(3t) + C \quad\Longrightarrow\quad y = 2 + C\exp(-3t).

    De y(0)=2+C=1y(0) = 2 + C = 1 vem C=1C = -1, e portanto y(t)=2exp(3t)y(t) = 2 - \exp(-3t).

    Note que y2y \to 2 quando tt \to \infty: o valor y=2y = 2 é a solução de equilíbrio, obtida fazendo y=0y' = 0 direto na equação.

  2. intermediáriocoeficiente variávelno espírito de Braun §1.2

    Encontre a solução geral de

    dydt1ty=t,t>0.\frac{dy}{dt} - \frac{1}{t}\,y = t, \qquad t > 0.
    Dica

    Cuidado com o sinal de a(t)a(t): a equação está na forma padrão com a(t)=1/ta(t) = -1/t.

    Resolução

    μ(t)=exp(dtt)=exp(lnt)=1t\mu(t) = \exp\left(-\int \frac{dt}{t}\right) = \exp(-\ln t) = \frac{1}{t}.

    Multiplicando a equação por 1/t1/t:

    ddt[yt]=1yt=t+Cy(t)=t2+Ct.\frac{d}{dt}\left[\frac{y}{t}\right] = 1 \quad\Longrightarrow\quad \frac{y}{t} = t + C \quad\Longrightarrow\quad y(t) = t^2 + Ct.

    Verificação: y=2t+Cy' = 2t + C e yyt=2t+C(t+C)=ty' - \frac{y}{t} = 2t + C - (t + C) = t. ✓

  3. avançadoproblema de misturano espírito de Braun §1.8

    Um tanque contém 100 L de água pura. A partir de t=0t = 0, entra salmoura com concentração de 2 g/L à vazão de 5 L/min, e a mistura — mantida homogênea — sai à mesma vazão de 5 L/min.

    Encontre a quantidade Q(t)Q(t) de sal no tanque e o valor de limtQ(t)\lim_{t\to\infty} Q(t). Interprete o limite.

    Dica

    Monte um balanço: taxa de variação = taxa de entrada − taxa de saída. A concentração de saída é Q/100Q/100.

    Resolução

    Montagem. Entra sal a 25=102 \cdot 5 = 10 g/min. Sai à concentração Q(t)/100Q(t)/100 g/L, à vazão de 5 L/min, ou seja, 5Q/100=Q/205Q/100 = Q/20 g/min. Logo

    dQdt=10Q20,Q(0)=0,\frac{dQ}{dt} = 10 - \frac{Q}{20}, \qquad Q(0) = 0,

    que na forma padrão é Q+120Q=10Q' + \frac{1}{20}Q = 10.

    Resolução. μ(t)=exp(t/20)\mu(t) = \exp(t/20), e portanto

    ddt[exp(t/20)Q]=10exp(t/20)exp(t/20)Q=200exp(t/20)+C.\frac{d}{dt}\bigl[\exp(t/20)Q\bigr] = 10\,\exp(t/20) \quad\Longrightarrow\quad \exp(t/20)Q = 200\,\exp(t/20) + C.

    Assim Q(t)=200+Cexp(t/20)Q(t) = 200 + C\exp(-t/20). De Q(0)=0Q(0) = 0 vem C=200C = -200:

    Q(t)=200(1exp(t/20)).Q(t) = 200\left(1 - \exp(-t/20)\right).

    Limite. Q200Q \to 200 g. E isso tem de ser assim: o tanque tende à concentração da entrada, 22 g/L, e 2×100=2002 \times 100 = 200 g. O modelo prevê o que o bom senso já dizia — o que é justamente o teste de sanidade que vale fazer sempre.

    Note também que o volume permaneceu constante porque as vazões são iguais. Se não fossem, o coeficiente a(t)a(t) deixaria de ser constante, e o fator integrante ficaria mais interessante.

Listas destas aulas

Aula 01Braun §1.2

Solução geral de equações lineares

Os sete enunciados pedem a mesma coisa — a solução geral — e todos cedem ao mesmo método. O que muda de um para outro é o que acontece na última integral.

A convenção usada aqui. Toda integração é feita entre um ponto base t0t_0 e o ponto corrente tt, e não como primitiva indefinida. Multiplicada por μ(t)=exp(t0ta(s)ds)\mu(t) = \exp\left(\int_{t_0}^{t} a(s)\,ds\right), a equação vira ddt[μy]=μb\frac{d}{dt}[\mu y] = \mu b, e integrar dos dois lados de t0t_0 a tt

μ(t)y(t)μ(t0)y(t0)=t0tμ(s)b(s)ds.\mu(t)y(t) - \mu(t_0)y(t_0) = \int_{t_0}^{t}\mu(s)b(s)\,ds.

Duas vantagens sobre o "+C+\,C" da primitiva indefinida. A constante arbitrária deixa de ser um símbolo solto e passa a ser um valor, y(t0)y(t_0) — o que já deixa o PVI resolvido de graça, como se verá na lista da aula 02. E o método continua valendo quando a primitiva não existe em forma elementar, porque o Teorema Fundamental do Cálculo garante a integral definida de qualquer função contínua, tenha ela primitiva com nome ou não.

O ponto base é livre: trocar t0t_0 multiplica μ\mu por uma constante positiva, que se cancela na divisão final. Nos exercícios abaixo ele é escolhido onde a conta fica mais limpa — quase sempre t0=0t_0 = 0.

Do 5º em diante aparece o ponto que a seção quer ensinar: uma equação linear está resolvida quando se chega à igualdade acima, mesmo que a integral não se escreva com funções elementares. Recusar a resposta em forma de integral seria confundir “resolver” com “achar fórmula fechada”.

O enunciado é do livro; a resolução é nossa. Tente antes de abrir — e confira as respostas na p. 557 do Braun.

  1. básicohomogênea de coeficiente periódicoBraun §1.2, nº 1

    Encontre a solução geral de

    dydt+ycost=0.\frac{dy}{dt} + y\cos t = 0.
    Dica

    Homogênea (b0b \equiv 0): divida por yy, reconheça ddtlny\frac{d}{dt}\ln|y| à esquerda e integre de t0t_0 a tt.

    Resolução

    Na forma padrão, a(t)=costa(t) = \cos t e b(t)=0b(t) = 0. Dividindo por yy — o que supõe y0y \neq 0 — o lado esquerdo é uma derivada logarítmica:

    ddtlny(t)=cost.\frac{d}{dt}\ln|y(t)| = -\cos t.

    Integrando de t0t_0 a tt:

    lny(t)lny(t0)=t0tcossds=(sintsint0),\ln|y(t)| - \ln|y(t_0)| = -\int_{t_0}^{t}\cos s\,ds = -(\sin t - \sin t_0),

    e exponenciando,

    y(t)=y(t0)exp(sint0sint).y(t) = y(t_0)\exp\bigl(\sin t_0 - \sin t\bigr).

    Coletando a constante. O fator y(t0)exp(sint0)y(t_0)\exp(\sin t_0) não depende de tt: é um número, e à medida que y(t0)y(t_0) percorre os reais ele percorre os reais também. Chamando-o de CC,

    y(t)=Cexp(sint).y(t) = C\exp(-\sin t).

    Verificação. y=Ccostexp(sint)=ycosty' = -C\cos t \exp(-\sin t) = -y\cos t. ✓

    Vale reparar em duas coisas. A solução é periódica de período 2π2\pi, oscilando entre Cexp(1)C\exp(-1) e Cexp(1)C\exp(1) — nada aqui cresce nem decai a longo prazo, porque 02πcostdt=0\int_0^{2\pi}\cos t\,dt = 0. E, para C0C \neq 0, ela nunca se anula: uma exponencial é sempre positiva. Isso não é acidente deste exercício, e sim propriedade de toda equação linear homogênea — solução que toca o zero em algum instante é identicamente nula, o que também explica por que a divisão inicial por yy não custou nenhuma solução além dessa.

    Solução geral.

    y(t)=Cexp(sint),CR.y(t) = C\exp(-\sin t), \qquad C \in \mathbb{R}.

    O valor C=0C = 0 devolve a solução nula, perdida na divisão por yy — a família acima é, portanto, o conjunto completo das soluções.

  2. intermediárioprimitiva não elementarBraun §1.2, nº 2

    Encontre a solução geral de

    dydt+ytsint=0.\frac{dy}{dt} + y\sqrt{t}\,\sin t = 0.
    Dica

    Mesma receita do anterior. A diferença aparece na hora de calcular ssinsds\int\sqrt{s}\,\sin s\,ds — e a saída é não calcular: deixe a integral definida onde está.

    Resolução

    Novamente homogênea, com a(t)=tsinta(t) = \sqrt{t}\,\sin t. O t\sqrt{t} do enunciado restringe o domínio a t0t \geq 0, então o ponto base natural é t0=0t_0 = 0. Integrando ddtlny=tsint\frac{d}{dt}\ln|y| = -\sqrt{t}\sin t de 00 a tt:

    lny(t)lny(0)=0tssinsdsy(t)=Cexp(0tssinsds),\ln|y(t)| - \ln|y(0)| = -\int_0^t \sqrt{s}\,\sin s\,ds \quad\Longrightarrow\quad y(t) = C\exp\left(-\int_0^t \sqrt{s}\,\sin s\,ds\right),

    com C=y(0)C = y(0).

    E a integral fica assim mesmo. ssinsds\int \sqrt{s}\,\sin s\,ds não se escreve com funções elementares, e é exatamente aqui que a convenção da integral definida deixa de ser preferência e vira necessidade: pelo Teorema Fundamental do Cálculo, a função

    A(t)=0tssinsdsA(t) = \int_0^t \sqrt{s}\,\sin s\,ds

    existe e é derivável em t0t \geq 0, com A(t)=tsintA'(t) = \sqrt{t}\,\sin t — e é só disso que a resposta precisa.

    Verificação. Pela regra da cadeia e pelo TFC, y=A(t)Cexp(A(t))=tsint  yy' = -A'(t)\,C\exp(-A(t)) = -\sqrt{t}\,\sin t\;y. ✓

    Trocar o limite inferior por outro t00t_0 \geq 0 muda AA por uma constante, o que só reabsorve o valor de CC — a solução geral é a mesma.

    Solução geral.

    y(t)=Cexp(0tssinsds),CR,t0.y(t) = C\exp\left(-\int_0^t \sqrt{s}\,\sin s\,ds\right), \qquad C \in \mathbb{R}, \quad t \geq 0.

    A integral 0tssinsds\int_0^t \sqrt{s}\,\sin s\,ds não tem primitiva elementar e fica indicada assim mesmo: ela é uma função perfeitamente definida de tt, e a resposta está completa nesta forma.

  3. básicofator integrante logarítmicoBraun §1.2, nº 3

    Encontre a solução geral de

    dydt+2t1+t2y=11+t2.\frac{dy}{dt} + \frac{2t}{1+t^2}\,y = \frac{1}{1+t^2}.
    Dica

    O numerador 2t2t é exatamente a derivada do denominador — a integral de aa é um logaritmo, e a exponencial o desfaz. Tome t0=0t_0 = 0, que zera esse logaritmo.

    Resolução

    Fator integrante. Com t0=0t_0 = 0,

    0t2s1+s2ds=ln(1+t2)ln1=ln(1+t2)μ(t)=1+t2.\int_0^t \frac{2s}{1+s^2}\,ds = \ln(1+t^2) - \ln 1 = \ln(1+t^2) \quad\Longrightarrow\quad \mu(t) = 1+t^2.

    Não é preciso módulo no logaritmo: 1+s2>01+s^2 > 0. E note o que a escolha t0=0t_0 = 0 comprou: μ(0)=1\mu(0) = 1, o que vai simplificar a próxima linha.

    Integrando de 00 a tt. Multiplicada por μ\mu, a equação é ddt[(1+t2)y]=1\frac{d}{dt}\bigl[(1+t^2)y\bigr] = 1, e portanto

    (1+t2)y(t)(1+02)y(0)y(0)=0t1ds=t.(1+t^2)y(t) - \underbrace{(1+0^2)y(0)}_{y(0)} = \int_0^t 1\,ds = t.

    Escrevendo C=y(0)C = y(0),

    y(t)=t+C1+t2.y(t) = \frac{t + C}{1+t^2}.

    Verificação. Com u=t+Cu = t+C e v=1+t2v = 1+t^2,

    y=(1+t2)(t+C)(2t)(1+t2)2=1+t22t22Ct(1+t2)2,y' = \frac{(1+t^2) - (t+C)(2t)}{(1+t^2)^2} = \frac{1 + t^2 - 2t^2 - 2Ct}{(1+t^2)^2},

    e somando 2t1+t2y=2t(t+C)(1+t2)2=2t2+2Ct(1+t2)2\frac{2t}{1+t^2}y = \frac{2t(t+C)}{(1+t^2)^2} = \frac{2t^2+2Ct}{(1+t^2)^2} sobra 1+t2(1+t2)2=11+t2\frac{1+t^2}{(1+t^2)^2} = \frac{1}{1+t^2}. ✓

    Toda solução tende a 00 quando t±t \to \pm\infty, e a diferença entre duas delas é C1C21+t2\frac{C_1 - C_2}{1+t^2}, que também vai a zero: as soluções se aproximam umas das outras. Compare com o exercício 1, onde a diferença entre duas soluções oscila para sempre.

    Solução geral.

    y(t)=t+C1+t2,CR,tR.y(t) = \frac{t + C}{1+t^2}, \qquad C \in \mathbb{R}, \quad t \in \mathbb{R}.
  4. intermediáriointegração por partesBraun §1.2, nº 4

    Encontre a solução geral de

    dydt+y=texp(t).\frac{dy}{dt} + y = t\exp(t).
    Dica

    μ(t)=exp(t)\mu(t) = \exp(t) com t0=0t_0 = 0, e à direita sobra 0tsexp(2s)ds\int_0^t s\exp(2s)\,ds — integração por partes, agora com limites.

    Resolução

    Fator integrante. Com a1a \equiv 1 e t0=0t_0 = 0: μ(t)=exp(0t1ds)=exp(t)\mu(t) = \exp\left(\int_0^t 1\,ds\right) = \exp(t), e μ(0)=1\mu(0) = 1. A equação multiplicada por μ\mu é

    ddt[exp(t)y]=exp(t)texp(t)=texp(2t).\frac{d}{dt}\bigl[\exp(t)\,y\bigr] = \exp(t)\cdot t\exp(t) = t\exp(2t).

    Integrando de 00 a tt.

    exp(t)y(t)y(0)=0tsexp(2s)ds.\exp(t)y(t) - y(0) = \int_0^t s\exp(2s)\,ds.

    Por partes, com u=su = s e dv=exp(2s)dsdv = \exp(2s)\,ds:

    0tsexp(2s)ds=[s2exp(2s)]0t120texp(2s)ds=t2exp(2t)exp(2t)14.\int_0^t s\exp(2s)\,ds = \left[\frac{s}{2}\exp(2s)\right]_0^t - \frac{1}{2}\int_0^t \exp(2s)\,ds = \frac{t}{2}\exp(2t) - \frac{\exp(2t) - 1}{4}.

    Logo

    exp(t)y(t)=2t14exp(2t)+y(0)+14=:C,\exp(t)y(t) = \frac{2t-1}{4}\exp(2t) + \underbrace{y(0) + \frac{1}{4}}_{=:\,C},

    e dividindo por exp(t)\exp(t):

    y(t)=2t14exp(t)+Cexp(t).y(t) = \frac{2t-1}{4}\exp(t) + C\exp(-t).

    Verificação. Derivando, y=24exp(t)+2t14exp(t)Cexp(t)y' = \frac{2}{4}\exp(t) + \frac{2t-1}{4}\exp(t) - C\exp(-t). Somando yy, os termos em CC se cancelam e sobra

    (12+2t14+2t14)exp(t)=(12+t12)exp(t)=texp(t).  \left(\frac{1}{2} + \frac{2t-1}{4} + \frac{2t-1}{4}\right)\exp(t) = \left(\frac{1}{2} + t - \frac{1}{2}\right)\exp(t) = t\exp(t). \;\checkmark

    A estrutura da resposta é a de sempre: uma solução particular da não homogênea, 2t14exp(t)\frac{2t-1}{4}\exp(t), somada à solução geral da homogênea, Cexp(t)C\exp(-t). Note que a constante 14\frac14 vinda do limite inferior da integral foi absorvida por CC — mais um sinal de que a escolha de t0t_0 não altera a família de soluções.

    Solução geral.

    y(t)=2t14exp(t)+Cexp(t),CR,tR.y(t) = \frac{2t-1}{4}\exp(t) + C\exp(-t), \qquad C \in \mathbb{R}, \quad t \in \mathbb{R}.
  5. intermediárioresposta em forma de integralBraun §1.2, nº 5

    Encontre a solução geral de

    dydt+t2y=1.\frac{dy}{dt} + t^2 y = 1.
    Dica

    O fator integrante sai fácil. O obstáculo é exp(s3/3)ds\int\exp(s^3/3)\,ds — que não tem primitiva elementar, e nem por isso impede a resposta.

    Resolução

    Fator integrante. Com t0=0t_0 = 0,

    0ts2ds=t33μ(t)=exp ⁣(t33),μ(0)=1,\int_0^t s^2\,ds = \frac{t^3}{3} \quad\Longrightarrow\quad \mu(t) = \exp\!\left(\frac{t^3}{3}\right), \qquad \mu(0) = 1,

    e a equação vira

    ddt[exp ⁣(t33)y]=exp ⁣(t33).\frac{d}{dt}\left[\exp\!\left(\frac{t^3}{3}\right)y\right] = \exp\!\left(\frac{t^3}{3}\right).

    Integrando de 00 a tt.

    exp ⁣(t33)y(t)y(0)=0texp ⁣(s33)ds,\exp\!\left(\frac{t^3}{3}\right)y(t) - y(0) = \int_0^t \exp\!\left(\frac{s^3}{3}\right)ds,

    isto é, com C=y(0)C = y(0),

    y(t)=exp ⁣(t33)[C+0texp ⁣(s33)ds].y(t) = \exp\!\left(-\frac{t^3}{3}\right)\left[C + \int_0^t \exp\!\left(\frac{s^3}{3}\right)ds\right].

    Aqui a integral não se escreve com funções elementares — é parente da que define a função erro. E aqui a convenção paga o que prometeu: com primitiva indefinida seria preciso dizer “seja FF uma primitiva de exp(s3/3)\exp(s^3/3)”, sem poder exibir nenhuma; com a integral definida, a resposta está escrita.

    Ela é tão explícita quanto qualquer outra: dá para avaliar numericamente em qualquer tt, derivar, estudar limites. O que não dá é escrevê-la com as funções que têm nome — e isso é uma limitação do nosso vocabulário de funções, não do método.

    Compare com o exercício seguinte, que tem o mesmo a(t)a(t).

    Solução geral.

    y(t)=exp ⁣(t33)[C+0texp ⁣(s33)ds],CR,tR.y(t) = \exp\!\left(-\frac{t^3}{3}\right) \left[C + \int_0^t \exp\!\left(\frac{s^3}{3}\right)ds\right], \qquad C \in \mathbb{R}, \quad t \in \mathbb{R}.

    A integral 0texp(s3/3)ds\int_0^t \exp(s^3/3)\,ds não tem primitiva elementar; ela permanece indicada na resposta, e isso não a torna menos explícita.

  6. básicoo lado direito decideBraun §1.2, nº 6

    Encontre a solução geral de

    dydt+t2y=t2.\frac{dy}{dt} + t^2 y = t^2.
    Dica

    Mesmo fator integrante do anterior — mas agora o integrando à direita é a derivada de algo conhecido. Atalho alternativo: procure primeiro a solução de equilíbrio.

    Resolução

    Com o mesmo μ(t)=exp(t3/3)\mu(t) = \exp(t^3/3) e μ(0)=1\mu(0) = 1:

    ddt[exp ⁣(t33)y]=t2exp ⁣(t33).\frac{d}{dt}\left[\exp\!\left(\frac{t^3}{3}\right)y\right] = t^2\exp\!\left(\frac{t^3}{3}\right).

    Integrando de 00 a tt. Desta vez o integrando é uma derivada conhecida, ddsexp(s3/3)\frac{d}{ds}\exp(s^3/3), e a integral definida se avalia:

    exp ⁣(t33)y(t)y(0)=0ts2exp ⁣(s33)ds=[exp ⁣(s33)]0t=exp ⁣(t33)1.\exp\!\left(\frac{t^3}{3}\right)y(t) - y(0) = \int_0^t s^2\exp\!\left(\frac{s^3}{3}\right)ds = \left[\exp\!\left(\frac{s^3}{3}\right)\right]_0^t = \exp\!\left(\frac{t^3}{3}\right) - 1.

    Logo exp(t3/3)y=exp(t3/3)+(y(0)1)\exp(t^3/3)\,y = \exp(t^3/3) + \bigl(y(0) - 1\bigr), ou seja, com C=y(0)1C = y(0) - 1,

    y(t)=1+Cexp ⁣(t33).y(t) = 1 + C\exp\!\left(-\frac{t^3}{3}\right).

    Pelo atalho. Fazendo y=0y' = 0 na equação original, t2y=t2t^2y = t^2y1y \equiv 1: uma solução constante. Somando a ela a solução geral da homogênea, Cexp(t3/3)C\exp(-t^3/3), chega-se ao mesmo resultado sem calcular integral nenhuma.

    O contraste com o exercício 5. As duas equações têm o mesmo coeficiente a(t)=t2a(t) = t^2 e, portanto, o mesmo fator integrante. Só o lado direito mudou — e com ele a diferença entre uma resposta em funções elementares e uma resposta escrita com integral. Quem decide se a conta “fecha” é bb, não aa.

    Solução geral.

    y(t)=1+Cexp ⁣(t33),CR,tR.y(t) = 1 + C\exp\!\left(-\frac{t^3}{3}\right), \qquad C \in \mathbb{R}, \quad t \in \mathbb{R}.
  7. avançadoreorganizar antes de identificarBraun §1.2, nº 7

    Encontre a solução geral de

    dydt+t1+t2y=1t31+t4y.\frac{dy}{dt} + \frac{t}{1+t^2}\,y = 1 - \frac{t^3}{1+t^4}\,y.
    Dica

    Ainda é linear — o yy aparece sozinho nos dois lados. Junte os dois termos em yy à esquerda antes de tentar identificar a(t)a(t).

    Resolução

    Forma padrão. Passando o termo em yy para a esquerda:

    dydt+(t1+t2+t31+t4)a(t)y=1.\frac{dy}{dt} + \underbrace{\left(\frac{t}{1+t^2} + \frac{t^3}{1+t^4}\right)}_{a(t)} y = 1.

    Fator integrante. As duas parcelas são derivadas logarítmicas — em cada uma, o numerador é a derivada do denominador a menos de constante. Com t0=0t_0 = 0, os dois logaritmos se anulam no limite inferior:

    0ts1+s2ds=12ln(1+t2),0ts31+s4ds=14ln(1+t4),\int_0^t \frac{s}{1+s^2}\,ds = \frac{1}{2}\ln(1+t^2), \qquad \int_0^t \frac{s^3}{1+s^4}\,ds = \frac{1}{4}\ln(1+t^4),

    de modo que

    μ(t)=exp[12ln(1+t2)+14ln(1+t4)]=(1+t2)1/2(1+t4)1/4,μ(0)=1.\mu(t) = \exp\left[\frac{1}{2}\ln(1+t^2) + \frac{1}{4}\ln(1+t^4)\right] = (1+t^2)^{1/2}\,(1+t^4)^{1/4}, \qquad \mu(0) = 1.

    Integrando de 00 a tt. Com b1b \equiv 1, ddt[μ(t)y]=μ(t)\frac{d}{dt}\bigl[\mu(t)y\bigr] = \mu(t), e portanto

    μ(t)y(t)y(0)=0tμ(s)dsy(t)=C+0t(1+s2)1/2(1+s4)1/4ds(1+t2)1/2(1+t4)1/4,\mu(t)y(t) - y(0) = \int_0^t \mu(s)\,ds \quad\Longrightarrow\quad y(t) = \frac{\displaystyle C + \int_0^t (1+s^2)^{1/2}(1+s^4)^{1/4}\,ds}{(1+t^2)^{1/2}(1+t^4)^{1/4}},

    com C=y(0)C = y(0). De novo uma integral sem primitiva elementar, e de novo isso não é problema: μ\mu é contínuo e positivo em toda a reta, então a solução está definida para todo tt.

    Por que reorganizar era obrigatório. Se alguém lesse a equação como está escrita e tomasse a(t)=t1+t2a(t) = \frac{t}{1+t^2}, o fator integrante sairia errado — e o erro não apareceria em nenhuma passagem seguinte, só no resultado final. A forma padrão y+a(t)y=b(t)y' + a(t)y = b(t) não é burocracia: é a única disposição em que os símbolos aa e bb significam o que o método supõe que signifiquem.

    Solução geral.

    y(t)=C+0t(1+s2)1/2(1+s4)1/4ds(1+t2)1/2(1+t4)1/4,CR,tR.y(t) = \frac{\displaystyle C + \int_0^t (1+s^2)^{1/2}(1+s^4)^{1/4}\,ds} {(1+t^2)^{1/2}(1+t^4)^{1/4}}, \qquad C \in \mathbb{R}, \quad t \in \mathbb{R}.

    A integral 0t(1+s2)1/2(1+s4)1/4ds\int_0^t (1+s^2)^{1/2}(1+s^4)^{1/4}\,ds não se exprime com funções elementares e fica indicada na resposta.

Aula 02Braun §1.2

Problemas de valor inicial lineares

Sete problemas de valor inicial, todos lineares de primeira ordem. O método é exatamente o da lista anterior, e aqui a convenção de integrar de t0t_0 até tt deixa de ser só uma organização melhor para virar o caminho mais curto:

μ(t)y(t)μ(t0)y(t0)=t0tμ(s)b(s)ds.\mu(t)y(t) - \mu(t_0)y(t_0) = \int_{t_0}^{t} \mu(s)b(s)\,ds.

Agora t0t_0 e y(t0)y(t_0) são dados pelo enunciado. A condição inicial entra na primeira linha da conta, e não existe constante alguma para determinar depois — some a etapa de “substituir t=t0t = t_0 e resolver para CC”.

E o método continua valendo quando a primitiva não é elementar, que é o caso de quatro dos sete enunciados abaixo. Nesses, aliás, não há alternativa: o Braun observa isso na Observação 4 da seção — dá para achar a solução geral e depois avaliar CC, exceto quando μb\mu b não se integra diretamente, e aí a integral definida é obrigatória.

O enunciado é do livro; a resolução é nossa. Tente antes de abrir — e confira as respostas na p. 557 do Braun.

  1. intermediáriohomogênea com primitiva fechadaBraun §1.2, nº 8

    Resolva o problema de valor inicial

    dydt+1+t2  y=0,y(0)=5.\frac{dy}{dt} + \sqrt{1+t^2}\;y = 0, \qquad y(0) = \sqrt{5}.
    Dica

    Homogênea: y=y(0)exp(0ta(s)ds)y = y(0)\exp\left(-\int_0^t a(s)\,ds\right). E, ao contrário do que costuma acontecer, 1+s2ds\int\sqrt{1+s^2}\,ds tem primitiva elementar — substituição hiperbólica.

    Resolução

    Sendo homogênea, a solução é

    y(t)=5exp(0t1+s2ds).y(t) = \sqrt{5}\,\exp\left(-\int_0^t \sqrt{1+s^2}\,ds\right).

    Esta já é uma resposta completa. Mas aqui a integral se avalia em forma fechada: com s=sinhus = \sinh u,

    0t1+s2ds=12[s1+s2+ln ⁣(s+1+s2)]0t=12[t1+t2+ln ⁣(t+1+t2)],\int_0^t \sqrt{1+s^2}\,ds = \frac{1}{2}\left[s\sqrt{1+s^2} + \ln\!\left(s + \sqrt{1+s^2}\right)\right]_0^t = \frac{1}{2}\left[t\sqrt{1+t^2} + \ln\!\left(t + \sqrt{1+t^2}\right)\right],

    já que o colchete se anula em s=0s = 0 (pois ln1=0\ln 1 = 0). Logo

    y(t)=5exp ⁣(t1+t22)(t+1+t2)1/2,y(t) = \sqrt{5}\, \exp\!\left(-\frac{t\sqrt{1+t^2}}{2}\right) \bigl(t + \sqrt{1+t^2}\bigr)^{-1/2},

    usando exp(12lnx)=x1/2\exp\left(-\frac{1}{2}\ln x\right) = x^{-1/2} no segundo termo.

    Verificação em t=0t = 0. exp(0)11/2=1\exp(0)\cdot 1^{-1/2} = 1, e y(0)=5y(0) = \sqrt{5}. ✓

    A solução está definida para todo tt: t+1+t2>0t + \sqrt{1+t^2} > 0 sempre, inclusive para tt muito negativo, quando 1+t2>t\sqrt{1+t^2} > |t|.

    Solução geral da equação.

    y(t)=Cexp ⁣(t1+t22)(t+1+t2)1/2,CR.y(t) = C\,\exp\!\left(-\frac{t\sqrt{1+t^2}}{2}\right) \bigl(t + \sqrt{1+t^2}\bigr)^{-1/2}, \qquad C \in \mathbb{R}.

    Solução do PVI: C=5C = \sqrt{5}.

  2. básicohomogênea de primitiva não elementarBraun §1.2, nº 9

    Resolva o problema de valor inicial

    dydt+1+t2exp(t)y=0,y(0)=1.\frac{dy}{dt} + \sqrt{1+t^2}\,\exp(-t)\,y = 0, \qquad y(0) = 1.
    Dica

    A mesma fórmula do exercício anterior. Não tente calcular a integral — escreva-a de 00 a tt e pare.

    Resolução
    y(t)=exp(0t1+s2exp(s)ds).y(t) = \exp\left(-\int_0^t \sqrt{1+s^2}\,\exp(-s)\,ds\right).

    O produto 1+s2exp(s)\sqrt{1+s^2}\exp(-s) não tem primitiva elementar, e a resposta fica assim mesmo. Note que a condição inicial já está embutida: em t=0t = 0 a integral vale 00 e y(0)=exp(0)=1y(0) = \exp(0) = 1, sem precisar determinar constante nenhuma.

    Como o integrando é positivo, a integral cresce com tt e yy é decrescente para t>0t > 0 — mas ela nunca chega a zero, pelo mesmo motivo do exercício 1 da lista anterior: exponencial não se anula.

    Solução geral da equação.

    y(t)=Cexp(0t1+s2exp(s)ds),CR,tR.y(t) = C\exp\left(-\int_0^t \sqrt{1+s^2}\,\exp(-s)\,ds\right), \qquad C \in \mathbb{R}, \quad t \in \mathbb{R}.

    A integral não tem primitiva elementar e permanece indicada.

    Solução do PVI: C=y(0)=1C = y(0) = 1.

  3. básicoa condição inicial nulaBraun §1.2, nº 10

    Resolva o problema de valor inicial

    dydt+1+t2exp(t)y=0,y(0)=0.\frac{dy}{dt} + \sqrt{1+t^2}\,\exp(-t)\,y = 0, \qquad y(0) = 0.
    Dica

    Antes de calcular qualquer coisa: existe uma função óbvia que satisfaz esta equação e esta condição inicial?

    Resolução

    A equação é a mesma do exercício 9; só a condição inicial mudou. E a resposta é

    y(t)0.y(t) \equiv 0.

    Por quê. A função identicamente nula satisfaz a equação (0+a(t)0=00 + a(t)\cdot 0 = 0) e satisfaz y(0)=0y(0) = 0. Pela fórmula geral,

    y(t)=y(0)exp(0ta(s)ds)=0exp()=0,y(t) = y(0)\exp\left(-\int_0^t a(s)\,ds\right) = 0 \cdot \exp(\cdots) = 0,

    e o teorema de existência e unicidade para equações lineares — com aa contínua, como aqui — garante que não há outra.

    O que este par de exercícios mostra. Numa equação linear homogênea, todas as soluções são múltiplos de uma só: se y1y_1 resolve, Cy1Cy_1 também resolve, e não há mais nada. A condição inicial apenas escolhe o múltiplo. Escolher o múltiplo zero é o único jeito de obter uma solução que toca o eixo — e ela o toca em toda parte, não num ponto. Nenhuma solução não nula da equação 9 cruza o eixo tt em instante algum.

    Solução geral da equação. É a mesma do exercício 9:

    y(t)=Cexp(0t1+s2exp(s)ds),CR,tR,y(t) = C\exp\left(-\int_0^t \sqrt{1+s^2}\,\exp(-s)\,ds\right), \qquad C \in \mathbb{R}, \quad t \in \mathbb{R},

    com a integral, sem primitiva elementar, indicada.

    Solução do PVI: C=y(0)=0C = y(0) = 0, isto é, y0y \equiv 0.

  4. básicofator integrante gaussianoBraun §1.2, nº 11

    Resolva o problema de valor inicial

    dydt2ty=t,y(0)=1.\frac{dy}{dt} - 2ty = t, \qquad y(0) = 1.
    Dica

    Atenção ao sinal: na forma padrão a(t)=2ta(t) = -2t, então μ(t)=exp(t2)\mu(t) = \exp(-t^2). E sexp(s2)s\exp(-s^2) integra na hora.

    Resolução

    Com μ(t)=exp(0t2sds)=exp(t2)\mu(t) = \exp\left(\int_0^t -2s\,ds\right) = \exp(-t^2), e portanto μ(0)=1\mu(0) = 1:

    ddt[exp(t2)y]=texp(t2).\frac{d}{dt}\bigl[\exp(-t^2)y\bigr] = t\exp(-t^2).

    O integrando é elementar — a menos do fator 12-\frac{1}{2}, é a derivada do próprio exp(s2)\exp(-s^2). Integrando de 00 a tt e usando y(0)=1y(0) = 1:

    exp(t2)y(t)1=0tsexp(s2)ds=[12exp(s2)]0t=1exp(t2)2.\exp(-t^2)y(t) - 1 = \int_0^t s\exp(-s^2)\,ds = \left[-\frac{1}{2}\exp(-s^2)\right]_0^t = \frac{1 - \exp(-t^2)}{2}.

    Logo exp(t2)y=3212exp(t2)\exp(-t^2)y = \frac{3}{2} - \frac{1}{2}\exp(-t^2), e multiplicando por exp(t2)\exp(t^2):

    y(t)=32exp(t2)12.y(t) = \frac{3}{2}\exp(t^2) - \frac{1}{2}.

    Repare que a condição inicial entrou na segunda linha, e não numa etapa posterior de “determinar CC”: não houve constante alguma para determinar.

    Verificação. y=3texp(t2)y' = 3t\exp(t^2) e 2ty=t3texp(t2)-2ty = t - 3t\exp(t^2); somando, sobra tt. ✓

    Compare com o exercício 14, que é a mesma equação com b1b \equiv 1 no lugar de b(t)=tb(t) = t — e cujo resultado não é elementar. Mais uma vez, quem decide é o lado direito.

    Solução geral da equação.

    y(t)=Cexp(t2)12,CR,tRy(t) = C\exp(t^2) - \frac{1}{2}, \qquad C \in \mathbb{R}, \quad t \in \mathbb{R}

    — a solução de equilíbrio y12y \equiv -\frac12 somada à geral da homogênea.

    Solução do PVI: C=32C = \frac{3}{2}.

  5. avançadoparte elementar e parte não elementarBraun §1.2, nº 12

    Resolva o problema de valor inicial

    dydt+ty=1+t,y ⁣(32)=0.\frac{dy}{dt} + ty = 1 + t, \qquad y\!\left(\tfrac{3}{2}\right) = 0.
    Dica

    Separe o lado direito em duas parcelas: texp(t2/2)t\exp(t^2/2) integra na hora, exp(t2/2)\exp(t^2/2) não integra nunca. Use t0=3/2t_0 = 3/2 como limite inferior.

    Resolução

    Com μ(t)=exp(t2/2)\mu(t) = \exp(t^2/2):

    ddt[exp ⁣(t22)y]=(1+t)exp ⁣(t22)=exp ⁣(t22)na˜o elementar+texp ⁣(t22)=ddtexp(t2/2).\frac{d}{dt}\left[\exp\!\left(\frac{t^2}{2}\right)y\right] = (1+t)\exp\!\left(\frac{t^2}{2}\right) = \underbrace{\exp\!\left(\frac{t^2}{2}\right)}_{\text{não elementar}} + \underbrace{t\exp\!\left(\frac{t^2}{2}\right)}_{= \frac{d}{dt}\exp(t^2/2)}.

    Integrando de 3/23/2 a tt e usando y(3/2)=0y(3/2) = 0, o lado esquerdo fica só exp(t2/2)y(t)\exp(t^2/2)y(t):

    exp ⁣(t22)y(t)=3/2texp ⁣(s22)ds+exp ⁣(t22)exp ⁣(98),\exp\!\left(\frac{t^2}{2}\right)y(t) = \int_{3/2}^{t}\exp\!\left(\frac{s^2}{2}\right)ds + \exp\!\left(\frac{t^2}{2}\right) - \exp\!\left(\frac{9}{8}\right),

    já que exp(s2/2)\exp(s^2/2) avaliado entre os limites dá exp(t2/2)exp((3/2)2/2)\exp(t^2/2) - \exp\bigl((3/2)^2/2\bigr) e (3/2)2/2=9/8(3/2)^2/2 = 9/8. Dividindo por μ\mu:

    y(t)=1+exp ⁣(t22)[3/2texp ⁣(s22)dsexp ⁣(98)].y(t) = 1 + \exp\!\left(-\frac{t^2}{2}\right) \left[\int_{3/2}^{t}\exp\!\left(\frac{s^2}{2}\right)ds - \exp\!\left(\frac{9}{8}\right)\right].

    Verificação em t=3/2t = 3/2. A integral se anula e sobra 1+exp(9/8)[exp(9/8)]=11=01 + \exp(-9/8)\bigl[-\exp(9/8)\bigr] = 1 - 1 = 0. ✓

    Repare que a parcela elementar do lado direito produziu a solução particular y1y \equiv 1 — a mesma que se acharia procurando o equilíbrio de y+ty=ty' + ty = t — e toda a parte não elementar ficou confinada ao termo que carrega a condição inicial.

    Solução geral da equação.

    y(t)=1+exp ⁣(t22)[C+3/2texp ⁣(s22)ds],CR,tR.y(t) = 1 + \exp\!\left(-\frac{t^2}{2}\right) \left[C + \int_{3/2}^{t}\exp\!\left(\frac{s^2}{2}\right)ds\right], \qquad C \in \mathbb{R}, \quad t \in \mathbb{R}.

    A integral exp(s2/2)ds\int \exp(s^2/2)\,ds não tem primitiva elementar e fica indicada; trocar o limite inferior 3/23/2 por outro ponto apenas redefine CC.

    Solução do PVI: C=exp ⁣(98)C = -\exp\!\left(\frac{9}{8}\right).

  6. intermediáriocondição inicial fora da origemBraun §1.2, nº 13

    Resolva o problema de valor inicial

    dydt+y=11+t2,y(1)=2.\frac{dy}{dt} + y = \frac{1}{1+t^2}, \qquad y(1) = 2.
    Dica

    μ(t)=exp(t)\mu(t) = \exp(t), e o limite inferior da integral é 11, não 00 — o ponto onde a condição foi dada.

    Resolução

    Com μ(t)=exp(t)\mu(t) = \exp(t):

    ddt[exp(t)y]=exp(t)1+t2.\frac{d}{dt}\bigl[\exp(t)y\bigr] = \frac{\exp(t)}{1+t^2}.

    O integrando não tem primitiva elementar. Integrando de 11 a tt:

    exp(t)y(t)exp(1)2=1texp(s)1+s2ds,\exp(t)y(t) - \exp(1)\cdot 2 = \int_1^t \frac{\exp(s)}{1+s^2}\,ds,

    e portanto

    y(t)=exp(t)[2exp(1)+1texp(s)1+s2ds].y(t) = \exp(-t)\left[2\exp(1) + \int_1^t \frac{\exp(s)}{1+s^2}\,ds\right].

    Verificação em t=1t = 1. A integral se anula e sobra exp(1)2exp(1)=2\exp(-1)\cdot 2\exp(1) = 2. ✓

    Escolher t0=1t_0 = 1 não é obrigatório — daria para integrar de 00 a tt e carregar uma constante —, mas é o que faz a condição inicial aparecer dentro da fórmula em vez de exigir uma conta extra depois.

    Solução geral da equação.

    y(t)=exp(t)[C+1texp(s)1+s2ds],CR,tR.y(t) = \exp(-t)\left[C + \int_1^t \frac{\exp(s)}{1+s^2}\,ds\right], \qquad C \in \mathbb{R}, \quad t \in \mathbb{R}.

    O integrando exp(s)1+s2\frac{\exp(s)}{1+s^2} não tem primitiva elementar; a integral fica indicada.

    Solução do PVI: C=2exp(1)C = 2\exp(1).

  7. intermediárioa função erroBraun §1.2, nº 14

    Resolva o problema de valor inicial

    dydt2ty=1,y(0)=1.\frac{dy}{dt} - 2ty = 1, \qquad y(0) = 1.
    Dica

    Mesmo fator integrante do exercício 11. Agora, porém, sobra exp(s2)ds\int\exp(-s^2)\,ds — a integral não elementar mais famosa da matemática.

    Resolução

    Com μ(t)=exp(t2)\mu(t) = \exp(-t^2):

    ddt[exp(t2)y]=exp(t2).\frac{d}{dt}\bigl[\exp(-t^2)y\bigr] = \exp(-t^2).

    Integrando de 00 a tt e usando y(0)=1y(0) = 1:

    exp(t2)y(t)1=0texp(s2)dsy(t)=exp(t2)[1+0texp(s2)ds].\exp(-t^2)y(t) - 1 = \int_0^t \exp(-s^2)\,ds \quad\Longrightarrow\quad y(t) = \exp(t^2)\left[1 + \int_0^t \exp(-s^2)\,ds\right].

    Verificação. Escrevendo I(t)=0texp(s2)dsI(t) = \int_0^t \exp(-s^2)\,ds, temos y=exp(t2)[1+I(t)]y = \exp(t^2)\bigl[1 + I(t)\bigr] e, pelo TFC,

    y=2texp(t2)[1+I(t)]+exp(t2)exp(t2)=2ty+1.  y' = 2t\exp(t^2)\bigl[1 + I(t)\bigr] + \exp(t^2)\exp(-t^2) = 2ty + 1. \;\checkmark

    A integral que sobrou é, a menos de normalização, a função erro:

    erf(t)=2π0texp(s2)ds,\operatorname{erf}(t) = \frac{2}{\sqrt{\pi}}\int_0^t \exp(-s^2)\,ds,

    de modo que y(t)=exp(t2)[1+π2erf(t)]y(t) = \exp(t^2)\left[1 + \frac{\sqrt{\pi}}{2}\operatorname{erf}(t)\right]. Batizar a integral não a torna mais elementar — erf é tabelada e implementada exatamente porque não se escreve com as funções de sempre. É o mesmo tipo de resposta dos exercícios 9, 12 e 13; só que esta tem nome próprio.

    Solução geral da equação.

    y(t)=exp(t2)[C+0texp(s2)ds]=exp(t2)[C+π2erf(t)],CR,tR.y(t) = \exp(t^2)\left[C + \int_0^t \exp(-s^2)\,ds\right] = \exp(t^2)\left[C + \frac{\sqrt{\pi}}{2}\operatorname{erf}(t)\right], \qquad C \in \mathbb{R}, \quad t \in \mathbb{R}.

    A integral 0texp(s2)ds\int_0^t \exp(-s^2)\,ds não tem primitiva elementar — dar-lhe o nome erf é notação, não solução em forma fechada.

    Solução do PVI: C=1C = 1.

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Depois disto

Fontes deste tópico

  1. Martin Braun. Differential Equations and Their Applications: An Introduction to Applied Mathematics, 4ª ed. Springer-Verlag, 1993.

    §1.2 · p. 2-11 (PDF: p. 18–27)

    Toda a estrutura deste tópico segue o Braun: primeiro o caso homogêneo, depois o fator integrante para o não homogêneo. A Observação sobre não decorar a fórmula é a Remark 3 da seção, na p. 8.

    fontes/EDO/Differential Equations and The - Braun, Martin_7579.pdf

Plataforma de estudo de matemática e suas aplicações. As fontes de cada tópico ficam listadas ao fim da respectiva página.