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O que é uma equação diferencial

Ordem, solução e o que significa "resolver" — o vocabulário mínimo antes de qualquer método.

Uma equação algébrica pede um número: x25x+6=0x^2 - 5x + 6 = 0 pergunta quais valores de xx a satisfazem, e a resposta é {2,3}\{2, 3\}. Uma equação diferencial pede uma função. Ela não fala do valor de yy num ponto, e sim de como yy varia — e pergunta quais funções variam daquele jeito.

Essa diferença é a razão de todo o curso existir. Quase toda lei que descreve alguma coisa mudando no tempo é escrita como uma relação entre a grandeza e sua taxa de variação, porque é isso que se consegue medir e postular localmente. A lei diz como o sistema muda agora; a equação diferencial é o instrumento que converte isso em como o sistema se comporta ao longo do tempo.

Definições

O adjetivo ordinária distingue esse caso de outro, que fica fora do curso:

O que é uma solução

O detalhe do intervalo não é formalidade. Uma função pode resolver a equação num pedaço da reta e nem sequer estar definida noutro, e a resposta honesta a “qual é a solução?” inclui onde ela vale — o tópico de existência e unicidade volta a esse ponto com um exemplo em que a solução explode em tempo finito.

Verificar é sempre possível; resolver quase nunca

Aqui está a assimetria mais útil do curso inteiro, e vale internalizá-la antes de aprender qualquer método:

Na prática isso significa que você nunca precisa “confiar” numa resposta, sua ou de outro. Substituir na equação decide a questão.

Solução geral, solução particular e a condição inicial

O exemplo acima expõe o padrão: soluções de equações diferenciais vêm em famílias, não sozinhas. Integrar introduz uma constante arbitrária, e uma equação de ordem nn costuma produzir nn delas.

O que fixa as constantes é informação adicional sobre o estado do sistema:

A família, vista

Nada disso é abstrato. A equação y=y/2y' = y/2 tem solução geral y=Cexp(t/2)y = C\exp(t/2), e a figura abaixo é essa família inteira de uma vez. Os tracinhos mostram a inclinação que a equação exige em cada ponto do plano; as curvas são as funções que seguem essas inclinações.

Clique em qualquer ponto para impor uma condição inicial ali e ver qual membro da família ela seleciona.

Passe o cursor para ver a solução por um ponto; clique para fixá-la.Toque no gráfico para fixar a solução que passa pelo ponto.

Três coisas ficam visíveis aí, e todas voltarão depois:

  • Por cada ponto passa uma curva — é o que o teorema de existência e unicidade vai garantir, e sob quais hipóteses.
  • A solução constante y0y \equiv 0 é a reta horizontal. Zeros do lado direito são soluções de equilíbrio, e organizam o comportamento das demais.
  • As curvas nunca se cruzam. Se cruzassem, o ponto de cruzamento teria duas soluções distintas passando por ele.

O que “resolver” vai significar neste curso

Vale deixar dito desde já, porque a palavra muda de sentido ao longo do programa:

  1. Forma fechada explícitay=2exp(t2/2)y = 2\exp(t^2/2). O ideal, e o caso raro.
  2. Forma implícita — uma relação G(t,y)=CG(t, y) = C que não se isola em yy. Ainda é uma resposta legítima; as equações exatas produzem quase sempre deste tipo.
  3. Descrição qualitativa — não a fórmula, mas o comportamento: para onde a solução vai, se oscila, se estabiliza. É o que o módulo de sistemas autônomos faz quando fórmula nenhuma existe.
  4. Aproximação numérica — uma tabela de valores com erro controlado, que é o que se usa quando o problema é real. Tema dos métodos numéricos.

Os quatro são respostas. Só o primeiro é fórmula.

Exercícios

Os dois primeiros são de vocabulário e devem sair rápido. O terceiro é o que separa quem entendeu a definição de solução de quem decorou o procedimento.

  1. básicoordem e classificaçãono espírito de Braun §1.1

    Dê a ordem de cada equação e diga se é uma EDO ou uma EDP.

    (a) (y)3+ty=cost(b) 2ux2+2uy2=0(c) y+y4=0\text{(a) } \bigl(y''\bigr)^3 + t\,y = \cos t \qquad \text{(b) } \frac{\partial^2 u}{\partial x^2} + \frac{\partial^2 u}{\partial y^2} = 0 \qquad \text{(c) } y' + y^4 = 0
    Dica

    Ordem conta derivações, não potências. E olhe quantas variáveis a incógnita tem.

    Resolução

    (a) EDO de ordem 2. A derivada mais alta é yy''; o expoente 33 é potência, não ordem. A incógnita yy depende de tt só.

    (b) EDP (equação de Laplace), de ordem 2. A incógnita uu depende de xx e de yy, daí as derivadas parciais. Fora do escopo deste curso.

    (c) EDO de ordem 1. De novo, y4y^4 é potência da função, não derivada.

  2. básicoverificação de soluçãono espírito de Braun §1.1

    Verifique que ϕ(t)=exp(t)+12exp(t)\phi(t) = \exp(-t) + \tfrac{1}{2}\exp(t) é solução de y+y=exp(t)y' + y = \exp(t) em R\mathbb{R}.

    Dica

    Derive e some. Não tente resolver a equação — só teste a candidata.

    Resolução

    Derivando termo a termo:

    ϕ(t)=exp(t)+12exp(t).\phi'(t) = -\exp(-t) + \tfrac{1}{2}\exp(t).

    Somando com ϕ\phi:

    ϕ(t)+ϕ(t)=[exp(t)+12exp(t)]+[exp(t)+12exp(t)].\phi'(t) + \phi(t) = \Bigl[-\exp(-t) + \tfrac{1}{2}\exp(t)\Bigr] + \Bigl[\exp(-t) + \tfrac{1}{2}\exp(t)\Bigr].

    Os termos em exp(t)\exp(-t) se cancelam e os dois meios se somam:

    ϕ(t)+ϕ(t)=exp(t).\phi'(t) + \phi(t) = \exp(t). \quad \checkmark

    Vale para todo tRt \in \mathbb{R}, logo ϕ\phi é solução em toda a reta.

    Note que não foi preciso saber de onde ϕ\phi veio.

  3. intermediárioo intervalo faz parte da respostano espírito de Braun §1.1

    Considere y=1t3y = \dfrac{1}{t - 3}.

    Verifique que ela satisfaz y=y2y' = -y^2. Em seguida responda: essa expressão define uma solução ou duas?

    Dica

    Onde a função está definida? A definição de solução exige um intervalo — e R{3}\mathbb{R} \setminus \{3\} não é um intervalo.

    Resolução

    Verificação. Derivando,

    y=1(t3)2,y2=(1t3)2=1(t3)2.y' = -\frac{1}{(t-3)^2}, \qquad -y^2 = -\left(\frac{1}{t-3}\right)^2 = -\frac{1}{(t-3)^2}.

    São iguais onde ambos existem, isto é, para todo t3t \neq 3. ✓

    A pergunta de verdade. A expressão define duas soluções distintas, não uma.

    A definição exige que a solução viva num intervalo. O conjunto R{3}\mathbb{R} \setminus \{3\} não é um intervalo: é a união de dois, (,3)(-\infty, 3) e (3,+)(3, +\infty). Em cada um deles a fórmula define uma solução, e elas não se comunicam — nenhuma informação atravessa t=3t = 3, onde a função nem existe.

    Por que isso importa. Um PVI com y(0)=1/3y(0) = -1/3 seleciona a solução em (,3)(-\infty, 3), e essa solução deixa de existir quando t3t \to 3^-. O intervalo máximo de existência é (,3)(-\infty, 3), e não a reta toda.

    Nada na equação y=y2y' = -y^2 avisa que isso vai acontecer: o lado direito é um polinômio, definido e suave em todo o plano. A singularidade é da solução, não da equação — e depende da condição inicial escolhida, o que nenhuma inspeção da equação revela. Essa é exatamente a distinção que existência e unicidade formaliza.

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Depois disto

Fontes deste tópico

  1. Martin Braun. Differential Equations and Their Applications: An Introduction to Applied Mathematics, 4ª ed. Springer-Verlag, 1993.

    §1.1 · p. 1-2 (PDF: p. 17–18)

    Define ordem, solução e o programa do livro. Duas páginas, mas fixam o vocabulário usado o resto do curso.

    fontes/EDO/Differential Equations and The - Braun, Martin_7579.pdf

Plataforma de estudo de matemática e suas aplicações. As fontes de cada tópico ficam listadas ao fim da respectiva página.