Aula 03
Substituições: equações homogêneas e a translação dos eixos
Os problemas 20 a 23 de §1.4 — quatro equações que não são separáveis como estão, e as duas trocas de variável que as tornam separáveis: y = tv quando só aparece o quociente y/t, e uma translação da origem quando o que atrapalha são constantes soltas.
- Exercícios
- 4
- Enunciados
- Braun §1.4, p. 26 (PDF: p. 42)
- Exercita
- Equações separáveis
Nenhum dos quatro problemas desta lista é separável do jeito que está escrito. E ainda assim eles são exercícios da seção das separáveis, porque é isso que a lista quer ensinar: uma troca de variável bem escolhida transforma numa separável uma equação que não era. São dois mecanismos, e os quatro enunciados os combinam.
Primeiro mecanismo: equações homogêneas. É o exercício 13 da mesma seção. Se o lado direito depende de e apenas através do quociente ,
a substituição — isto é, — produz e portanto
que é separável. A razão de fundo é que não muda quando se multiplicam e pelo mesmo fator: o campo de direções é constante ao longo de cada reta que passa pela origem, e é justamente o rótulo dessa reta.
Segundo mecanismo: transladar a origem. Considere
Sem e ela seria homogênea, e o primeiro mecanismo resolveria. Com eles, a invariância por escala se perde — mas repare no que e são geometricamente: numerador e denominador se anulam sobre duas retas, e as constantes só dizem que essas retas não passam pela origem. A substituição , é uma translação dos eixos, e escolher como o ponto de encontro das duas retas faz as constantes sumirem. Vista do novo centro, a equação é homogênea.
Quando não há ponto de encontro. As retas podem ser paralelas — é exatamente o caso —, e aí não existe que sirva: a translação não funciona. Mas então numerador e denominador são funções da mesma combinação , e é ela a variável certa. O exercício 21 organiza os dois casos, e o 23 é um exemplar concreto do paralelo.
Assim: 20 e 22 são o caso genérico (retas concorrentes, translação seguida de homogênea), 21 é o teorema por trás dos dois, e 23 é o caso degenerado.
O enunciado é do livro; a resolução é nossa. Tente antes de abrir — e confira 21 e 23 na p. 557 do Braun; os pares não têm resposta no livro.
Considere a equação diferencial
Saberíamos resolver esta equação se as constantes e não estivessem presentes. Para eliminá-las, fazemos a substituição , .
(a) Determine e de modo que possa ser escrita na forma .
(b) Encontre a solução geral de . (Veja o Exercício 18.)
Dica
Em (a), substitua e imponha que as constantes que sobram sejam nulas — são duas equações lineares em e . Em (b), a equação reduzida é homogênea: use .
Resolução
Por que a substituição não muda a derivada. Como e são constantes, e , de modo que . A troca é uma translação dos eixos, e a inclinação da curva em cada ponto é a mesma vista de qualquer origem.
(a) Determinação de e . Substituindo e :
Para chegar à forma pedida basta anular as duas constantes:
Ou seja, e : a nova origem está em , que é precisamente onde as retas e se cruzam. Não é coincidência — é o conteúdo do exercício 21.
(b) A equação reduzida. Dividindo numerador e denominador por ,
que só depende de : é homogênea. Com e ,
Separação e integração. Como , não se perde solução ao dividir:
Volta a e . Com , os dois termos logarítmicos se juntam:
de modo que a solução geral, em forma implícita, é
Volta às variáveis originais. Com e ,
O que essas curvas são. Em coordenadas polares centradas na nova origem — , — a igualdade acima diz , isto é,
espirais logarítmicas em torno do ponto . Escrita assim, a resposta não tem o defeito do , que só distingue direções a menos de e obriga a tratar e em separado.
Verificação. Para vale , e
Sobre o ponto . Ali numerador e denominador se anulam ao mesmo tempo: a equação assume a forma e não define direção alguma. É o centro das espirais, e nenhuma solução passa por ele — todas apenas se enrolam em sua volta, com quando .
(a) Prove que a equação diferencial
onde , , , , e são constantes, sempre pode ser reduzida a se .
(b) Resolva a equação acima no caso especial em que .
Dica
Em (a), a substituição do exercício 20 leva a um sistema linear em e cujo determinante é exatamente . Em (b), a hipótese diz que é múltiplo de — então é a única variável que aparece.
Resolução
(a) O caso . Com , , e lembrando que ,
A forma desejada se obtém exigindo que as duas constantes se anulem:
Isto é um sistema linear em com matriz e determinante . Sendo ele não nulo, o sistema tem solução única — e, por Cramer,
Feita essa translação, a equação fica , como se queria. E ela agora é homogênea: dividindo por em cima e embaixo, o lado direito é , função só de . Pelo exercício 13, é separável.
Leitura geométrica. é exatamente a condição de as retas e não serem paralelas; e o par dado por Cramer é o ponto onde elas se cruzam. A demonstração é a versão algébrica de “mude a origem para a interseção”.
(b) O caso . Agora as duas retas são paralelas, não há ponto de encontro, e a translação não tem o que fazer. Mas a mesma hipótese dá o substituto: diz que os vetores e são proporcionais, digamos , e portanto
Numerador e denominador dependem de e só através de . Essa é a variável certa. De ,
que é separável — não sobrou nenhum ou solto do lado direito. (Se , a hipótese força ; com isso dá e a equação se integra diretamente. Suponhamos daqui em diante e , e escrevamos .)
A conta. Multiplicando numerador e denominador por ,
Chamando — de modo que e — a equação vira
e integrando,
Simplificação. Substituindo de volta, , e o termo em se combina com ele:
Absorvendo as constantes e dividindo por :
ou, exponenciando,
Os dois subcasos que a fórmula não cobre.
- Se , então : o denominador é múltiplo do numerador, é constante e as soluções são retas.
- Se , então é constante e a separação fica ainda mais simples: , que integra num polinômio de segundo grau em , sem logaritmo nenhum. É o caso do exercício 23.
Encontre a solução geral de
Dica
Isole para reconhecer o formato do exercício 21 e teste . Dá diferente de zero: transladar a origem para a interseção das duas retas e seguir com .
Resolução
Forma padrão.
isto é, , , , , , . Então
e estamos no caso genérico do exercício 21: as retas se cruzam.
Translação. Resolvendo e obtém-se , . Com e ,
Homogênea. Com e ,
Frações parciais. De , avaliando em e em , vem e . Logo
Multiplicando por e exponenciando,
Volta a e . Com , temos e , de modo que o lado esquerdo é — e o fator cancela com o da direita:
Volta às variáveis originais. Com e : e . Portanto
Verificação. Escrevendo e , derivar dá , ou seja , e daí . Como
sobra . ✓
As duas soluções que a divisão excluiu. Ao dividir por supusemos e , isto é, descartamos as duas retas que passam pelo centro com essas inclinações:
- : . É solução — substituindo, e o lado direito vale —, e volta à família com .
- : , ou . Também é solução ( dos dois lados), mas nenhum finito a produz. Ela é o caso limite , e para incluí-la basta escrever a resposta na forma recíproca
com dando exatamente essa reta. É a mesma situação do §1.4 nº 1 (Lista 4), em que a forma explícita perdia a solução : o defeito é do passo algébrico, não da equação.
Solução geral.
mais a reta . Todas as curvas passam pelo ponto — o único ponto do plano onde a equação toma a forma .
Encontre a solução geral de
Dica
Compare os dois parênteses: um é quase o dobro do outro. Teste antes de tentar transladar — e, se der zero, use .
Resolução
Por que a translação não serve. Na forma padrão,
temos , , , , e
Estamos no caso degenerado do exercício 21(b): as retas e são paralelas — a segunda é a primeira multiplicada por , a menos do termo constante — e não existe origem que anule as duas constantes de uma vez. Note também que , o subcaso sem logaritmo.
A substituição certa. Ambos os parênteses dependem de e só através de : o primeiro é , o segundo é . Com , isto é, , a equação original vira
Multiplicando por :
Os termos em fora da derivada se cancelaram — é o que significa — e sobrou uma equação separável de integração imediata.
Integração.
Volta às variáveis originais.
que é a resposta do livro. Esta é uma solução em forma implícita, e é assim que se deixa: resolver para obrigaria a escolher um ramo da raiz.
Verificação. Derivando implicitamente com : , ou , com . Substituindo, , e como e , vem
isto é, . ✓
O que essas curvas são, e onde cada solução vive. Escrevendo a relação como
vê-se que, para cada , é uma parábola em com máximo em , no instante
Cada curva de nível existe, portanto, só para , e tem dois ramos — um com , outro com — que se encontram nesse ponto de retorno. Cada ramo é uma solução, no intervalo .
O ponto de encontro é justamente onde , a reta em que o coeficiente de se anula e a equação deixa de estar na forma normal: de vem , e portanto , quando . A curva chega ali com tangente vertical e para — o mesmo fenômeno do §1.4 nº 6 e nº 9 (Lista 4), agora causado pela reta proibida da equação.